Palheiro ou maconha?
Foi nos anos 80 que despertei para a música. No prédio onde eu morava havia um vizinho, que além de tocar muito bem um violão, tinha vários discos interessantes. Era o meu amigo Fernando. O filho do Véio Chico, que fumava “paiêro” no elevador. Dos cheiros a gente nunca esquece. E dos discos? E foi justamente um desses, que acabei reencontrando esses dias. Não o palheiro, mas o disco da banda inglesa The Police, liderada pelo Sting.
O episódio
Eu estava caminhando com minha família por uma dessas feirinhas ripongas, no Pelourinho da Covilhã, cidade onde moro aqui em Portugal. O ambiente em muito lembrava a cidade baixa em Porto Alegre, mas poderia ser qualquer lugar onde tem estudante, vida alternativa, idealismos, sonhos e futuros pela frente. Tinha também um cheiro peculiar pairando no ar, que circulava pelas ruas daquele casario antigo. Nada que lembrasse o palheiro do Seu Chico. Era maconha mesmo. Aqui em Portugal o consumo é tolerado. Então, de saída daquela “festa estranha com gente esquisita”, encontrei um “gajo” vendendo discos e parei. Lembrando que o estranho ali era eu. Bem como disse Renato Russo em seu livro: “quando se entra no mundo adulto, se não tomar cuidado, deixa entrar o cinismo”.
CD Player
A idade média dos automóveis portugueses é ligeiramente maior do que a brasileira. Por isso, os carros daqui, incluindo o meu, ainda esbanjam do famoso “CD Player”. Então, não resisti. Fiquei olhando as opções do vendedor de discos e logo encontrei o CD duplo do The Police. O mesmo que o amigo Fernando tinha em LP. Original. De volta para casa, com dez euros a menos na guaiaca, entrei no carro e coloquei para ouvir enquanto descia as sinuosas curvas ao som de Roxanne, Every breath you take entre outras clássicas. Disco duplo! Bem coisa de velho, deve ter pensado meu filho Pedro e toda aquela “malta” que lá estava. Mas foi ao ouvir com calma a música “Spirits in a material world” que percebi como paramos no tempo.
A música
A tradução é minha e a letra dessa música fala mais ou menos assim:
“Não há solução política para nossa problemática evolução.
Não há fé na Constituição, nem mesmo uma revolução.
Somos espíritos em um mundo material.
Nossos supostos líderes falam,
E com palavras tentam te aprisionar,
Eles subjugam os mansos,
É a retórica do fracasso.
Somos espíritos em um mundo material”.
Os jovens
Quantas análises e reflexões se tornam possíveis a partir desta pequena letra? A idade me faz ver os jovens com a lente da minha história. Não poderia ser diferente, ainda que eu tenha empatia. Mas as tais ideologias que eles hoje se agarram me parecem ser bem mais frágeis do que as que eu outrora me agarrei – e cantei. E isso não envelheceu em mim. E para minha surpresa, nessas quase quatro décadas de grandes evoluções, a letra da música continua atual. Continua não havendo “solução política para nossa problemática evolução”. Grupos políticos oportunistas continuam se aproveitando dos mais fracos, como fez Hitler e agora faz o Hamas. E o que vemos? Jovens apoiando a Palestina. Até aí, tudo bem. Tudo certo. O problema é que no meio deles há quem torça pelos terroristas. Está tudo às claras. A gente sabe quem apoia quem.
Desfecho
Talvez essas cenas que estamos vendo expliquem porque o arquétipo do terrorista, pelo menos no Brasil, corresponde a um bando inofensivos e desajustados sujeitos de cabelos brancos que sequer usam armas. Geração Baby Boomer. Gente que se tornou prisioneira dos nossos “supostos líderes”. Gente mansa, subjugada, que cansou da “retórica do fracasso”. Somos “espíritos num mundo material”. Isso me faz crer ainda mais nas palavras de Humberto de Campos, contadas no livro “Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho”. Somos realmente “spirits in a material world”.