O inferno de cada um
Comecei a ler o livro da bielorrussa Sverlana Alexievich: Vozes de Chernobyl. A história do desastre nuclear ocorrido em 1986. Bem mais do que contar o que se passou, o livro traz à superfície o naufrágio do Regime Soviético e o fracasso do comunismo da então União Soviética, num viés jamais visto. Além de relatos, o livro me apresentou aquele que pode ser o meu inferno particular. A autora recebeu o Nobel de Literatura em 2015.
História
Muitos dos que hoje se aproximam dos 40 anos, talvez nem saibam que em 26 de abril de 1986 aconteceu o maior desastre nuclear da História. O superaquecimento de um reator causou uma explosão e um incêndio de enormes proporções, espalhando pelos ares a radiação de Chernobyl. As autoridades soviéticas esconderam o fato da comunidade internacional. Mas não por muito tempo. A nuvem de fumaça radioativa era tão grande que acabou cruzando continentes e foi detectada pelos controles atmosféricos em toda a Europa, tendo chegado até o Canadá. Só então é que os soviéticos tiveram noção do problema.
O livro
A obra, do gênero jornalismo literário, conta a história de testemunhas que vivenciaram aquela tragédia. O projeto de investigação durou dez anos e o original, em russo, foi publicado em 1997. A obra traz detalhes sobre a vida dos comuns. O bombeiro que em menos de trinta dias derreteu pelos efeitos da radiação, a menina que nasceu anos mais tarde com grandes deformações, a ignorância das pessoas em como lidar com a tragédia e o mais absoluto descaso com o povo da antiga União Soviética. O livro narra uma verdadeira guerra, contra um inimigo praticamente invisível: a radiação.
Histórias que comovem
No momento, cheguei à metade da leitura. Ainda tem muita desgraça pela frente. Mas o que li agora, algo me tocou profundamente: a matança dos animais. Na ignorância de que poderiam transportar a radiação, formaram-se brigadas de caçadores, que foram levados até as redondezas da usina desativada. Lembrando que as cidades ao redor foram totalmente evacuadas. As pessoas abandonavam suas casas, na maioria, com a roupa do corpo. Sobraram os cães, gatos, peixes, tartarugas, cavalos. De estimação e de produção, foram todos mortos! Animais que permaneciam à frente de casa, à espera de seus donos. Cães e gatos, que aos poucos, instintivamente, começavam a caçar para sobreviver. É de cortar o coração a narrativa de um dos “caçadores”, que quando chegava às casas, era recebido com a amorosidade dos cães e dos gatos. “Os filhotes vinham a mim lamber minhas mãos”, narrou o caçador, encarregado de os matar.
A comparação inevitável
Ainda que em situação completamente diferente, acabei por lembrar dos meus cachorros. Um por um. Tive de os deixar quando mudei para Portugal. Sonho com eles. Sofro, quase choro. Ficaram todos bem, eu sei. Foram para as casas dos amigos que os receberam com muito amor e carinho. Mas sei bem, que lá no fundo, um cheiro ou barulho qualquer, são capazes de fazê-los lembrar de mim. Imagino quantas vezes não pararam em frente aos portões à minha espera. Como é difícil sentir isso. Me coloco no lugar daqueles caçadores. O inferno que deve ter sido para eles, ter de matar a natureza inocente por conta da maldade e ignorância humana. Eu sei, esse é o meu inferno. A decisão tomada e a eterna espera de meus cachorros.
OBS: No artigo publicado na edição de ontem, 31. com o título “A ditadura silenciosa”, cometi um equívoco. Escrevi a palavra ‘senso’ com “C”. Desculpa aos leitores e feito a correção.