Conação e conexão
Na semana que passou, minha filha me apresentou o livro de psicologia que irão estudar neste novo ano letivo português. Na ementa, surgiu uma palavra que não lembrava conhecer: conação. Os dicionários a definem como o termo usado para referir a capacidade de aplicação da “energia intelectual” em uma determinada tarefa, da forma necessária e ao longo do tempo, para que uma solução seja alcançada e para que uma tarefa seja completada. É um conjunto de processos que se ligam à execução de uma ação ou comportamento, que movem o ser humano num dado sentido.
Na coluna de ontem
Ontem, escrevi que embora o Governador demonstrasse, com o uso do colete da Defesa Civil, a importância que dava à tragédia do Vale do Taquari, os esforços do órgão de proteção civil pareciam sofrer de uma certa defasagem interna. Não estou aqui a criticar os esforços, mas sim no tempo de demora para efetivar a ajuda. Reparei em como as respostas demoraram para gerar os efeitos, o que demonstrou, de certa maneira, a falta de preparo, de treinamento ou, como dizia o filósofo Schopenhauer, a falta de instrução. Seja como for, sobrou “conação” no exército de voluntários que se dirigiram ao local, enquanto parece ter faltado por parte daqueles que recebem para isso, ou que ocupam também de forma voluntária, os cargos atinentes ao fato.
De volta ao conceito
A tal “energia intelectual” referida no conceito de conação consiste no conjunto de respostas que se dá a um determinado evento. Conexão ao fato. Respostas, que não deixam de ser sinapses. Reações químicas que ocorrem no cérebro, conectando informações, gerando atitudes. Quanto maior o conhecimento, maior a energia. Mas para ter “conhecimento”, é preciso “processar” a informação, transformando-a em “formação”. Por isso, é preciso reconhecer o papel dos voluntários. Foi a partir da formação que tiveram, em casa, nas escolas, nas relações pessoais, que partiram para o “front” ajudar. A centelha da solidariedade. A sinapse da empatia. A semente do altruísmo. O desejo de que a situação seja controlada e os efeitos negativos mitigados. Mas o Estado, lerdo como sempre, dá mau exemplo e, quiçá, desencoraja os mais fracos.
Fazer com amor
As reportagens que vi, mesmo à distância, mostraram como o amor desinteressado é possível. A onda de solidariedade, amplamente divulgada, é prova de que somos seres humanos que agem com impulsos do mais verdadeiro amor. Foi assim na Covid e é sempre assim em muitas cenas do quotidiano, e que sequer reparamos. Tudo isso, para dizer que, muito além do que a mídia tem mostrado, que vai desde as falcatruas dos políticos, das tentativas do judiciário em desvirtuar as mais claras leis do país, dos golpes e mais golpes na internet, dos milhões (ou seriam bilhões) recuperados pelo Ministério Público e que serão devolvidos aos corruptos para realimentar o sistema, o Brasil é gigante. Tem um povo que sabe amar, mas que no dia-a-dia, parece sentir uma certa vergonha em mostrar sua verdadeira essência. Para desespero dos maus, o bem não dorme e reage em cadeia.