Favelados de Setúbal
Na semana que passou, tirei uma semanita de férias. Saímos em busca de uma boa água de mar. As praias do centro e norte têm fama de serem gélidas. Optamos então pela região que fica ao sul de Lisboa, a Península de Setúbal. A opção pelo litoral alentejano, que fica além do rio Tejo, foi acertada. Em verdade, queria comparar as praias portuguesas com as brasileiras. Acabei encontrando algo em comum.
A região
Setúbal parece ser uma região pouco habitada. Não tem os arranha céus que fazem sombra à beira mar, como vemos no litoral brasileiro. Não faria diferença no fim da tarde, porque como estamos do outro lado do oceano, o sol se põe no mar. Há muita zona de preservação ambiental. Diferente do Brasil, são lugares realmente protegidos, onde nem se pode chegar perto. Os campos são dedicados ao plantio de videiras, frutas e há longos trechos com corticeiras, para o fabrico de rolhas. Lembra muito o antigo litoral catarinense. Na indústria, além das vinícolas, reparei numa fábrica da Volkswagen e uma outra de cimento, na beira de uma linda praia. Um atentado à ecologia. Coisas do passado. Mas o que eu vi em Setúbal, até então, não tinha visto em qualquer outro lugar da Europa, somente no Brasil: favelas.
Favelas portuguesas
Quem vai do Brasil para a Europa parte com uma ideia fixa de que se trata de um continente onde não existem favelas e há mais igualdade entre os homens. Os próprios portugueses, às vezes com um certo ar de deboche, perguntam ou fazem piadas sobre o Rio de Janeiro e suas favelas. Talvez desconheçam que no socialismo português, que muito bem trata os filhos de sua terra (em comparação ao Brasil) e que castiga a iniciativa privada com elevada tributação (pior que no tempo do império), também há favelas. E não foram muitas as que vi. Mas para o padrão europeu, algo inconcebível e preocupante. Barracos feitos de sobras, piores que os brasileiros. Espaços precários, como aqueles da marginal de Passo Fundo. A tal vila dos papeleiros, que existia em Porto Alegre. Gente que vive do lixo dos outros.
Origens
Não saberia dizer se as favelas nascem por conta de um Estado ineficiente. Acredito que há também algum DNA por trás disso. Mas sei, com certeza, que são pessoas que a sociedade não quer ver, e por mais que tenham propensão a este tipo de comportamento, são também vítimas da desigualdade social, formada por indivíduos que não reparam nos outros. À beira de uma das belas praias de Lisboa, em direção a rica Estoril, em terrenos onde se estacionam carros para se aproveitar a praias do Atlântico Norte, vemos também algumas barracas de campismo, à sombra do muro de mansões, por baixo de pequenos arbustos. Nelas vivem indivíduos disfarçados de campistas. Moram em barracas. São pessoas que não têm o DNA de favelado. São apenas invisíveis. E tudo bem pertinho donde vive o Primeiro Ministro.
Progresso
Nas ruas quase não se encontram pessoas a pedir esmolas. Mas há. E pedem comida. Estão famintos. O estado português, que é extremamente benevolente, parece não conseguir atender a todos. É como a teoria do “cobertor curto”… Pretendo um dia, talvez dentro de um ano, voltar a estes lugares e ver se lá permanecem, se cresceram ou diminuíram os contingentes de pessoas desabrigadas. Enfim, como naquele tempo em que voltávamos e escrevíamos uma redação no primeiro dia aula. Se a professora me perguntasse sobre minhas férias, eu diria que vi muitas Ferraris, Porsches e Lamborghinis. Vi muitos restaurantes lotados de gente rica saboreando os premiados vinhos de Setúbal. Vi campos de golf e lindas praias que jamais pensei que pudessem existir, talvez melhores que as do Brasil. Mas infelizmente, por trás de todo esse progresso, natureza e riqueza, percebi que há favelas e gente excluída na terra de Antonio Costa. Porque o homem continua sendo o lobo do homem, não importa o continente.