Juventude derretida
O título desta coluna era para ser outro. Eu bem que gostaria de chamá-la de juventude leucêmica. Pareceria rude, eu sei. Um desrespeito para com quem sofre desta moléstia, talvez. E como se trata de um artigo de opinião, diria que sim, a juventude de hoje está leucêmica. Não pela doença, mas pelo comportamento.
A leucemia
Também conhecida como câncer no sangue, a leucemia é uma doença que afeta os glóbulos brancos. Responsáveis pelas defesas do corpo humano, seu desequilíbrio deixa a pessoa exposta a muitos males. Entre os sintomas destacam-se a febre, a perda de peso, as infecções frequentes, a dor nos ossos e uma sensação de fraqueza. Não é uma doença ligada ao fator idade. Meu amigo Carlitos, um sujeito alegre e bastante ativo não resistiu à doença e deixou este plano aos 68. As crianças têm cerca de 90% de chance de cura, enquanto os adultos de até 60 anos têm 50%. O transplante de medula óssea é um dos tratamentos, mas faltam doadores.
Fraqueza
Pensando bem, os jovens de hoje não são leucêmicos. Mas dos sintomas da doença, é inevitável a comparação com a fraqueza. Basta reparar. Os jovens estão sempre deitados, escorados, derretidos sobre qualquer superfície que os sustente. Essa geração 2000 parece não ter o mesmo entusiasmo das anteriores. São apáticos, preguiçosos e reclamões. Cansam com facilidade. Além disso, muitos têm um tônus muscular amolecido, fruto do sedentarismo precoce, da má alimentação e das distrações que nem é preciso enumerar. Claro que há exceções, mas há um contingente de jovens nesta situação, cuja saúde no futuro é preocupante.
Facilidades
Talvez, a grande culpa desse comportamento coletivo resida no fato de que os pais, inclusive eu, têm um certo medo de que os filhos passem pelas dificuldades e necessidades que os nossos pais passaram. Crescemos ouvindo como a vida era difícil e quando chega a nossa hora de exercer a paternidade, procuramos evitar situações que em verdade seriam benéficas aos jovens, como trabalhar, por exemplo. Não me refiro ao serviço que impede o aprendizado, mas sim aquelas tarefas domésticas, como limpar a casa, levar o lixo, tratar os animais, cuidar da própria roupa, entre outras tarefas, que acabam por sobrecarregar mães e alguns pais.
Desconectando
Nessas férias pude perceber o quanto os jovens são dependentes de uma conexão com a internet. Quando não há, demoram a perceber o universo ao seu redor. Até que aos poucos encontram um baralho, uma bola ou qualquer outro “dispositivo” que independe da internet. Eu sei que isso faz parte das características desta geração. Mas estar conectado parece ser sempre a primeira opção. E o futuro? E a capacidade de “se desenrascar”, como dizem aqui em Portugal. E a criatividade, tão importante para tocar a vida em frente. As facilidades deste mundo conectado são boas e inegáveis, reconheço. Mas e o equilíbrio? É preciso que as crianças e jovens desenvolvam atividades, aprendam coisas da natureza, pois do jeito que andam, tendem a viver como doentes. Derretidos em um sofá qualquer, à espera de uma conexão com a internet que possa os devolver para o mundinho em que pensam viver, enquanto nós, velhos, pagamos a conta em troca de algum sorriso.