Deficientes
Já tinha um tempo em que eu não recorria à etimologia. Esse ramo das letras que estuda a origem das palavras e que tanto pode ajudar a compreender os significados. E na semana que passou, fiquei refletindo sobre o termo “deficiente”. Palavra que já foi adjetivo e até mesmo utilizada de maneira pejorativa. O politicamente correto alterou até mesmo o seu uso nas designações, mas o sentido, esse nunca será perdido.
Etimologia
O termo deficiente vem do latim “deficere”. Significa falta ou falha. Tem a mesma origem do termo déficit, que por sua vez é utilizado na economia, por exemplo: o déficit da balança comercial, quando um país importa mais do que exporta (em valores). O “déficit primário”, que ocorre quando os governos gastam no mês mais do que arrecadam. Mas o que vem a ser uma pessoa deficiente? O termo tem sido considerado por alguns ativistas e cientistas sociais como inadequado. Entendem que desta forma carrega uma carga negativa que deprecia a pessoa. Porém, quando se fala em depreciar, também se fala em preço ou apreço, o que faz a discussão derivar para os conceitos de igualdade e isonomia. Uma vida tem um preço?
Conceito Internacional
Para a Organização Mundial da Saúde, deficiência representa ausência ou disfunção de uma estrutura psíquica, fisiológica ou anatômica. Diz respeito à atividade exercida pela biologia da pessoa e pode ser aplicado à quem apresenta algum impedimento de longo prazo, seja de natureza física, mental, intelectual ou sensorial. Ponto!
Preconceito
Ao mesmo tempo em que a humanidade parece estar vivendo um certo retrocesso em determinados valores sociais, felizmente o preconceito para com as pessoas deficientes tem diminuído. Nesta senda, há que se exaltar todos os esforços abrigados no sentido da inclusão. Contra determinadas limitações, não há o que se possa fazer. Mas com relação ao entorno, sim. Nos primórdios, um sujeito que quebrava uma perna poderia dar adeus à própria vida. Mas foi graças ao amor entre os homens que a medicina e os cuidados com o próximo permitiram essa capacidade de cuidar, regenerar e não abandonar.
Pós-modernidade
Há muitas maneiras de se tornar deficiente, além da nascença. Um acidente, uma doença, um trauma psicológico. Quando nasci, meu piloro estava obstruído. Não havia como o leite materno passar do estômago para os meus intestinos. Sentia fome, como todo o bebê, mas o ciclo da alimentação era interrompido pelo vômito, causado pela fermentação do leite que não chegava ao seu destino. Vivi 19 dias assim. Fiquei desnutrido e se não fosse uma luz a iluminar a assertividade do médico, certamente eu seria estatística de mortalidade infantil, também por conta dos inexistentes exames de ultrassom. Era tudo na base da intuição e do conhecimento. Salvo deste infortúnio, vivo no lucro desde o meu nascimento. Sou daqueles sujeitos que não podem reclamar. Surfo no “superavit” da vida (contrário de déficit), graças ao corte certeiro pouco abaixo da minha costela. Minha cicatriz, minha vida.
Ex deficiente
Hoje me considero um sujeito normal. Deixei de ser deficiente. Sou um superavitário das manhãs. Mesmo assim, sou sabedor, enquanto mortal, que o meu destino foi alterado. Passados 49 anos daquela bem-sucedida cirurgia, tenho de estar consciente de que os privilégios também cessam. Nessas horas, além de agradecer por mais um dia, procuro ser um como o Anselmo, da minha coluna de ontem. Mas em vez de ficar no zape, “reencaminhando com frequência”, aqui estou, neste espaço a tomar o seu tempo. Tudo isso para dizer como é bom ser grato à vida. Que Deus me permita ainda muitos anos para que eu possa servir, especialmente ao meu filho Vicente, que nasceu como eu, com uma deficiência. A vida é assim. Basta ser grato!