O Tiozão do Zape
A história que vou contar hoje pode ter vários nomes e sobrenomes. Toda a família tem lá o seu Tiozão do Zape. Aquele sujeito que sente alegria em poder compartilhar tudo o que passa por seu smartphone. São orações, pedidos de ajuda, a boa e velha flauta do futebol, as mensagens de autoajuda, e claro, as postagens sobre política.
Seu Anselmo
Anselmo é um desses aposentados do Brasil. Já dobrou os 65 anos. Nasceu no interior, bem no dia em que o Brasil ganhou a primeira copa do mundo. Aos oito nove anos já ajudava os pais na lavoura em Soledade. Família de muitos irmãos e de poucas posses,. Dedicavam-se à subsistência e ao cultivo do fumo. Para ir às “brizoletas” (nome dados aos antigos grupos escolares do interior), tinha de caminhar alguns quilômetros. Os chinelos de dedo eram sua arma para quebrar a geada daqueles invernos do planalto gaúcho. Mas Anselmo sempre foi otimista e na maioridade serviu à pátria, voluntariamente. Saiu do quartel em 1979. Viveu todo aquele movimento da anistia.
A vida adulta
Como muitos da sua idade, Anselmo não frequentou a Universidade. Nem a pública, tampouco as particulares. Ficou pela oitava série, mas era autodidata. Lia os jornais e ouvia rádio. Casou-se com Jussara, uma professora, dois anos mais nova. Foram morar próximo da capital, onde havia trabalho. Naquele tempo era o que as pessoas procuravam: trabalho. Tiveram teve três filhos: um médico, um advogado e a filha mais nova passou num concurso público da Petrobras. Anselmo trabalhou em fábricas. Viu surgir os movimentos sindicais. Um líder nato, por pouco não foi sindicalista. Só não sucumbiu porque os seus anos de quartel lhe deram alguns valores que não eram compatíveis com o discurso político, ainda que defendesse algumas teses mais sociais.
A transformação
Anselmo viu quase de tudo na vida. Aposentado, complementa o orçamento fazendo pequenas reformas. Banheiros, calçadas, quiosques. E como todo mundo, naquela pandemia, deixou de comprar jornais em bancas. Aderiu às redes sociais. Hoje, ouve rádio e lê as notícias pelo celular. Todo moderninho. Anselmo é um sujeito atualizado. Ficou viúvo logo que se aposentou. Um câncer na mama levou Jussara. Solitário, adquiriu seu único vício: as redes sociais. Quando não está trabalhando, passa horas rolando a tela para cima. Os filhos, com boa cultura universitária, lhe apelidaram de Véio do Zape, o que já lhe rendeu até algumas inimizades, especialmente depois que a política se polarizou.
Solidão
Recentemente o Sr. Anselmo arranjou uma briga com um antigo vizinho. No grupo dos moradores da sua rua, postou uma mensagem em que um ministro do STF falava mal da qualidade das drogas no Brasil. Anselmo ficou indignado. Correu ao filho, que é advogado e entende das leis. Questionou ao primogênito para saber se um supremo ministro poderia dar uma opinião dessas. Como pode um ministro falar sobre a qualidade das drogas! Droga é droga! Não tem da boa, bravava enfurecido! Indignado com muita coisa que tem se passado ultimamente, o alegre aposentado agora se vê triste e solitário. Sobretudo, muito confuso. Passou uma vida cumprindo regras, vivendo restrições e respeitando as pessoas. Deu um duro danado para educar os filhos. Se aposentou com um salário mínimo e achava que tinha feito tudo certo, até que o vizinho lhe zombou por conta do comentário. Não tolerou o “cancelamento”.
Depressão
Depois desse recente episódio, Anselmo parece ter perdido o brilho dos olhos. Nem mesmo a perda da esposa e o futebol o animam. A peleia com o vizinho, seu amigo por mais de três décadas, os conteúdos que recebe no smartphone e as pechas de ser o “tiozão do zape” têm deprimido o velho Anselmo. Sua diversão derradeira se tornou o seu algoz. Anselmo se sente uma ilha em meio a tudo o que vê. Maldita solidão! Malditas convicções! Valores que se escorrem em meio aos dedos de suas mãos, calejadas de trabalhar uma vida toda, para chegar à terceira idade e ver tudo isso perder o sentido. Anselmo é uma pessoa que ninguém vê, mas todos sabem quem é o tio do zape. Há sempre um dedo a apontar.