A Narrativa
Virgílio era um sujeito esquisito. Ao mesmo tempo em que lhe faltava um dente incisivo, deixando aparecer o escuro da boca, sempre tinha frases de efeito. Não frequentou o colégio. Era prepotente demais para isso. Também, viveu em um tempo em que estudar era um luxo. Mas Virgílio tinha o poder da retórica. E como não era homem de muitos valores, usava sua aparência para enganar a todos, inclusive o dente que lhe faltava.
Numa ocasião foi preso. Não pagou a pensão. Malandro, pediu dinheiro emprestado para a amante e se viu livre do cárcere. Com o tempo foi aprendendo as malandragens da vida. Sempre esperto, aproximou-se de pessoas influentes. Não demorou e ganhou a confiança dos ricos. Como já disse, Virgílio tinha um dom, mas não o utilizava para o bem. Poucos percebiam, talvez por conta da sua aparência simples e o seu jeito errado de falar. Mas estava sempre muito bem vestido. Ternos de alta-costura e gravatas sóbrias. Virgílio enchia o peito e se sentia um Churchill na hora de falar, apesar dos erros do seu português ruim.
De aparência amigável, poucos sabiam que Virgílio era perigoso e vingativo. Sempre foi. Passava despercebido como um pedófilo no parque. Volta e meia batia na mulher, bebia e então mostrava sua verdadeira alma. Em casa, tudo tinha de funcionar do seu jeito, ainda mais quando fumava um charuto. A sorte da família é que ele estava sempre viajando. Depois que se meteu em política, mais ainda. Mas seu destino preferido era o exterior. Dava um dedo para lá estar.
Debochado, tirava onda com o vizinho. Um soldado da Brigada, evangélico, que a muito custo mantinha honestamente a família com o pouco que ganhava. E mesmo assim, gostava de aparecer para cima do pobre vizinho. Virgílio nunca trabalhou, mas vivia ostentando sinais de riqueza, o que deixava o vizinho quase louco. Com enorme cara de pau, pedia a vaga de estacionamento emprestada para guardar seus belos importados. Ainda zombava, justificando que a segurança da cidade era péssima. Os automóveis nunca lhe faltaram, como também nunca estiveram em seu nome. “Não é meu, é de um amigo”, sempre repetia.
Recentemente Virgílio apareceu na capital. Foi visto pela TV, animado em garbosas cerimônias. Tanto se infiltrou que conseguiu causar problemas até para o pobre juiz que o levou para o xadrez. Com o tempo, as pessoas passaram a temer o Virgílio. Demorou. Tempo suficiente para que o poder e a tirania lhe subisse por completo à cabeça. Aprendeu a beber com moderação, mas volta e meia contava bravatas e caia em asneiras, culpa de seu despreparo e mau caráter. Rodeado de covardes, sempre tinha um a dizer: “não era isso que ele queria dizer”.
Pois é. Quantos Virgílios será que tem por aí? Eu que tirei onda com os patriotas que rezavam em frente aos quartéis, enquanto a esquerda defendia a democracia brasileira. Agora, me sinto assim, um brigadiano frustrado, vendo generais que nasceram no auge da ditadura batendo continência para ditadores. Enquanto o desmatamento continua, vejo mulheres, jornalistas da “inimídia”, agredidas, sem nenhum pudor, em frente às câmeras. Mas o que me faz colocar o nariz de palhaço é ver o tal Virgílio ajeitando um cargo público para o seu advogado. Quem disse que Virgílio é mau pagador? Saiu da cadeia e agora pagou o advogado. Nessas horas, eu tenho pena mesmo, é daquele 1%, que vai ter de carregar no lombo, as agruras dos outros 50%. Mas confesso: tudo isso, nada mais, não passa de uma narrativa. E tá só começando.