Ciúmes
Eis um sentimento presente em quase todos os seres humanos. Cantado, falado e muitas vezes escondido. Acompanha a nossa espécie desde o tempo das cavernas. Capaz de temperar a vida e os relacionamentos, também pode matar, o que o torna uma grande faceta (des) humana.
No século passado
Houve um tempo em que era comum conhecermos homens que tinham duas mulheres. Alguns chegavam a ter dois lares, duas famílias, como se fossem dois personagens. Homens que juravam amar duas mulheres. Tempos de uma sociedade patriarcal. Mas as mulheres não. Algumas até podiam buscar um pouco de carinho e atenção para além das fronteiras de casa. Mas era inimaginável ver uma mulher com dois lares, duas famílias. Mas porque será que os homens daquele tempo eram ainda mais diferentes do que as mulheres?
Na literatura
Se o mundo da música retrata exaustivamente o tema com a chamada “sofrência”, a literatura também soube abordar o ciúme. Afinal, é um sentimento que acompanha o amor, ainda que silenciosamente. E poucos escritores tiveram a mesma sensibilidade de Tolstói. É dele a obra “Ensaio sobre o Ciúme”, uma história que desvenda as nuances do casamento. Trata-se de um relato triste e ao mesmo tempo intenso, rodeado de amarguras e que escancara a fragilidade masculina. Homens que julgavam conseguir controlar seus próprios sentimentos, o que muitas vezes os tornavam vítimas de si mesmos.
Inveja e ciúme
Mas o ciúme, muitas vezes, pode também ser confundido com a inveja. São sentimentos parecidos, mas onde há inveja, não costuma haver amor. Na Bíblia temos a história do fratricídio de Abel, morto pelo ciúme de Caim. Tema que José Saramago aproveitou para contar as desventuras e desassossegos do errante irmão, na obra de mesmo nome.
Etimologia
E como não poderia faltar, é preciso falar das origens, não só do sentimento, mas sobretudo da palavra. O termo “ciúme” tem origem na palavra latina zelúmen e no grego zelosus. Ambas remetem ao vocábulo zelos, que significa fervor, calor, ardor ou intenso desejo. No inglês, deu origem a palavra jealousy, tão bem cantada por John Lennon na música “Jealous”. Caetano Veloso também cantou o ciúme, mas de maneira sutil. Na música “Sozinho”, nos ensinou que “quando a gente gosta, é claro que a gente cuida”.
Na psicologia
Freud definiu o ciúme como um estado emocional e o classificou em três níveis: o competitivo – que ele considerava como normal - o projetado e o delirante. O primeiro, pode ser explicado como um ciúme relacionado à concorrência e a rivalidade. Algo semelhante ao medo de perder um objeto amado. Os demais estágios, de maior intensidade, fogem do normal e tendem a ser muito perigosos. Merecem cuidado especializado.
No tempo das cavernas
Sendo o ciúme uma herança instintiva muito primitiva, há também quem o utilize para justificar porque os homens traem. De acordo com o princípio da perpetuação da espécie, apenas as mulheres teriam a absoluta certeza de que estariam a deixar descendentes, porque carregam suas crias em seu ventre. Os homens não. Inseguros, são incapazes de amar como as mulheres e a dúvida sempre os atordoa, pois nunca terão a certeza de que estão a perpetuar a espécie. Por esta razão, antropologicamente falando, traem suas parceiras como forma de minimizar o risco de não deixarem descendentes. Isso tudo para dizer que as mulheres são a verdadeira evolução da nossa espécie. E mesmo assim, continuam temperadas e ciumentas.