A vergonha
Quem nunca passou por isso? Quem nunca viveu o constrangimento da vergonha? Assim, um pouquinho, quem nunca? E do orgulho? Parece o lado oposto. Soa triunfante, mas também é perigoso. Enquanto a vergonha parece nos diminuir, o orgulho tem lá suas… duas caras: uma de glória e outra de resistência.
Orgulho
As situações que podem nos levar a ter orgulho de alguém ou de alguma coisa, sempre guardam uma certa dose da nossa própria personalidade. O orgulho está intrinsecamente ligado às situações de que gostamos. O sentimos, por exemplo, quando um filho é elogiado por outra pessoa. E como é bom quando isso acontece. Mas no fundo, o orgulho é pessoal, porque de alguma forma, participamos daquele resultado desejado. Por outro lado, pode ser negativo, especialmente naquelas situações em que ficamos reticentes, desconfiados. Em verdade, se trata do medo disfarçado de valores pessoais. Não vou fazer isso, ou aquilo, porque senão…e por aí vai.
Orgulho e vergonha
Então, quando o orgulho tem essa cara de medo, é sinal de que percebemos o cheiro da vergonha. Acontece naquelas situações em que estamos sujeitos à determinada exposição, mas que em razão da insegurança não sabemos se o resultado vai para um lado ou para outro. Se for para o lado bom, ativa o ego e se purifica como orgulho puro. Mas se tende a ir para o lado negativo, ativa o lado “vergonha”. Melhor não arriscar, sopra um anjinho cagão em nosso ouvido. Portanto, orgulho e vergonha são valências muito parecidas.
Vergonha
A vergonha é coisa complicada. É algo que nos recolhe à insignificância. Está sempre relacionada ao fracasso, ao constrangimento, ao julgamento social. É o orgulho ao contrário. Em vez de respirarmos fundo, encher o peito e olhar altivo, focamos o chão, como se fosse possível, num passe de mágica, abrir um buraco e se enterrar, até que as vozes julgadoras parem de ressoar em nossa mente. Ficamos um pouco esquizofrênicos diante dela.
Custo benefício
Há situações na vida em que certas opções tendem a nos levar adiante, a promover o nosso progresso. Mas todo êxito tem lá o seu custo. Quando esse preço não é bem avaliado, ele pode aceder a porta indesejada da vergonha. No entanto, também podem ocorrer situações em que o tal julgamento externo nem perceba, mas que mesmo assim não impede que o coração se amargue.
A minha vergonha
Na semana que passou, fiz um breve balanço de todas as coisas que fizemos para estar aqui. Não é motivo de orgulho, por certo, mas os progressos que tivemos foram sensíveis e importantes em nossas vidas. Faz parte de nossos propósitos. Porém, sempre há custos associados às nossas escolhas. Se não lembramos deles no dia-a-dia, não tem problema, nosso inconsciente se encarrega disso e nos faz lembrar em sonhos. E é aí que mora o perigo. Na realidade, é onde está a verdade. E nessa mudança toda por que passei, confesso: há algo que me envergonha. Não se trata de algo externo. Minha vergonha é íntima. Uma cobrança interna, pessoal. É a ausência que deixei na vida de meus cachorros que me causa vergonha. De tão bons que são e foram, agora eles vêm a mim em sonhos. Não me cobram nada. Não me exigem nada. Não me julgam nem me ignoram. É só amor. E isso dói como a saudade.