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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

O moscão

Por Marcos Vinicius Simon Leite

São antigos e conhecidos os golpes e falsas blitze em que farsantes utilizam roupas e insígnias privativas das forças policiais. Mesmo assim, estes golpes costumam ser descobertos ao acaso, quase que por acidente. Como saber se um policial é ou não policial quando o que se vê são apenas as vestes? E mais, como você se sentiria ao ver nas ruas, centenas deles, vestidos rigorosamente iguais aos policiais de verdade? Porém, há outro tipo de crime ocorrendo a todo o momento e que ninguém vê ou reclama.

A vida sem a mentira

Esta foi uma das primeiras crônicas que escrevi neste jornal, ainda antes de me tornar colunista. Na ocasião, disse que a mentira é uma artimanha exclusiva da espécie humana, uma versão aprimorada da dissimulação, esta sim, presente em muitos animais e até mesmo em plantas. As ditas “carnívoras” esbanjam a beleza de suas flores e assim atraem incautos insetos, que são engolidos pelo fechamento de suas envolventes pétalas. A dissimulação tem relação direta com o princípio da perpetuação da espécie e independe da racionalidade. Já a mentira, é a capacidade humana de ir além da verdade, com ou sem maldade. Afinal, o que há em comum entre os mentirosos, é a incrível capacidade de fantasiar coisas, de criar histórias aparentemente verdadeiras.

O moscão

Antigamente quando alguém não percebia bem as malandragens, era comum ser chamado de “moscão”. Todos sabem da agilidade com que as moscas fogem de seus predadores e mata-moscas. Mas os moscões não. São lentos e atrasados. Presas fáceis. Daí o jargão que os identifica com os distraídos. E nesse mundo rodeado de incautos, vemos, até mesmo, pessoas se passando por polícia. Infelizmente, essa prática de enganar pessoas também chegou ao jornalismo, sob a denominação já nem tão nova de fake news. Diante das facilidades proporcionadas pelas tecnologias, qualquer pessoa que tenha um pouco de dinheiro e criatividade pode, da noite para o dia, criar um jornal web e, a partir daí, disseminar conteúdos falsos. O requinte criativo é tal, que a cada dia os tais agentes inovam ainda mais. E não se engane, o moscão pode ser você, pego em seu próprio celular.

Ciência

Quando alguém não conhece o verdadeiro trabalho jornalístico, fica difícil distinguir uma notícia falsa de uma notícia verdadeira. Para piorar este cenário, a proliferação de comunicadores envolvidos com esta prática dificulta a identificação e a punição dos envolvidos. Comparando de forma grosseira, é como se de uma hora para outra, centenas de policiais saíssem pelas ruas. A primeira impressão, seria de que as ruas estariam mais bem policiadas e, porque não dizer, seguras. Até se descobrir, que centenas de “falsos praças” estariam a fazer o papel justamente contrário ao das forças de segurança. Talvez esta alusão dê conta de informar como está o ambiente jornalístico atualmente.

Detalhes

Alguns detalhes podem indicar o rastro dessa prática. O primeiro deles, é ver sobre o que estão a noticiar. O assunto. Se for política, desconfie. Conhecendo as pretensões dos falsos jornalistas e, até mesmo dos profissionais que esquecem da ética, sabemos que há um intuito em comum: desinformar e desacreditar o próprio jornalismo. Contrariando a função do policial, a das fake news é promover insegurança e com isso obter alguma vantagem financeira. No entanto, parece haver algum entrave político tendente a não ajudar a sociedade a combater essa forma sorrateira de cometer crimes. É provável que as fake news tenham na política, um ambiente acolhedor. Talvez por esta razão, os danos à democracia não tenham atingido níveis suficientes para motivar movimentos legislativos tendentes a dificultar, punir e dar luz ao problema.

O que fazer?

Em meio a isso tudo, a população ainda consegue viver com uma certa sensação de segurança. Algo como andar pelas ruas e ver, aqui e acolá, algum brigadiano a indicar que tudo está a correr bem. Em meio a isso, a polarização e as alianças partidárias conseguem conviver tranquilamente com insultos e “fogo amigo”, enquanto a política continua sendo um bom ambiente de negócios. Infelizmente, há perguntas que permanecem sem respostas: até quando as pessoas estarão dispostas a arriscar a liberdade? Qual seria o limite? Até quando a democracia conseguirá conviver com esse câncer a roer suas entranhas?

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