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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Saudade

Por Marcos Vinicius Simon Leite
Foto Divulgação

Já se foram quatro meses desde que passamos a vizinhar com a Terra dos Descobridores, o “belo monte” dos Cabrais. Talvez um bom momento, quem sabe, para lembrar da saudade. Essa palavra tão bela, que poucos idiomas ostentam, mas que traduz um sentimento universal aos seres humanos.

A vida como dicionário

Sempre que posso, costumo conceituar as coisas. Não exatamente um conceito literal, pronto, desses que a gente se suporta no bom e velho amansa burro. Aliás, uma alcunha socrática bem apropriada para o livro que se dedica a catalogar os significados. E a vida da gente, de certa forma, não deixa de ser um dicionário. Sempre que vamos avançando no tempo, vamos também aprendendo. Partimos do zero e no caminho da vida vamos colecionando experiências, sucessos, frustrações, todas elas – invariavelmente – permeadas de significados e emoções, como se a vida fosse um dicionário de experiências chamado memória.

Avançando na vida

Eu tinha vinte e poucos anos quando – aparentemente - passei da condição de aprendiz para a de professor. Esse momento importante do meu “dicionário” foi marcado por um presente que ganhei de meu primeiro aluno. Ele se chamava Guilherme Dultra (com éle mesmo) e o presente foi um livro, que mantenho comigo até hoje: “Sobre o tempo e a eternidade”, do Rubem Alves. Não conhecia o autor. Aliás, não conhecia quase nada na vida. Mas foi este livro que me fez despertar para muitas coisas que viriam pela frente. Ao começar a leitura, logo percebi que gostaria de ser como Rubem Alves. Recomendo a leitura, especialmente a parte em que ele diz que os violinos não envelhecem. E foi justamente neste livro que conheci o conceito de saudade.

Conceito

Rubem Alves escreveu sempre de forma delicada. Talvez por isso, seu conceito de saudade seja tão marcante, quase rude. Para ele, “saudade é o revés de um parto, é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Essa ideia fulmina por completo todas aquelas outras sensações que são “parecidas”, mas que não são propriamente saudade. Nostalgia, memória afetiva, seja o que for, com Rubem Alves aprendi que a saudade é algo profundo e definitivo. Essa ideia, de certa maneira, aplaca nossos corações. Sorte de quem vive hoje, com os avanços da tecnologia, que permitem com que a gente possa se comunicar com quem está longe. Mas com quem está no além, isso sim é muito mais complicado.

Do que tenho saudade

Então, de acordo com Rubem Alves, poderia dizer que não sinto saudades do Brasil. Sinto sim, falta de algumas pessoas que até poderia listar, mas correria o risco de esquecer alguém e causar mágoas. E nesse dicionário da vida, tem algo que supera o conceito, por ser definitivo enquanto dura, lembrando Vinicius de Moares. O que realmente me faz forte e tranquilo, é saber que as camas aqui em casa amanhecem sempre desarrumadas. É por isso que sinto algumas faltas, mas não sinto saudades. Em Portugal, há certas coisas que não conseguiria ter no Brasil, mas essas eu só vou contar daqui a algum tempo, quando estiverem prontas e escritas. Estou a caminho. Até amanhã!

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