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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Moeda Comum

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Todas as vezes em que leio minhas colunas no jornal, olho para o lado e me deparo com os indicadores econômicos. Inspirado em uma coluna escrita pelo jornalista Daniel Scola sobre a placa do Mercosul e, pela minha formação em Economia, decidi que era o momento de escrever sobre a moeda comum do Mercosul. Foi o que fiz no começo do ano, mas infelizmente esta coluna precisou ficar na geladeira, em razão daqueles episódios lamentáveis que ocorreram em Brasília.

Realidade argentina

A ideia da moeda comum parece ser, em verdade, uma experiência entre Brasil e Argentina. Talvez os outros países do bloco – se der certo – queiram aderir. No entanto, acredito que a adesão latina depende exclusivamente do sucesso do derby. Há, porém, uma questão inicial que precisa ser respondida: Qual o propósito disso? Seria um gesto altruísta do Brasil em querer salvar a economia hermana, tão sofrida e depredada nos últimos quarenta anos? Tem sido assim, desde que Raúl Alfonsin assumiu a presidência do país vizinho, em 1983, após os sete anos de ditadura militar. Aliás, foi a própria inflação que derrubou este presidente, depois dos fracassados planos Austral e Primavera.

Realidade brasileira

Diferente do país irmão, o Brasil soube, ainda que tardiamente, domar o “dragão” da inflação. Foi em agosto de 1993, quando FHC capitaneou o Plano Larida, batizado de “Plano Real”, elaborado pelos economistas André Lara Resende e Pérsio Arida. Aliás, poucos sabem, mas o Plano Larida havia sido oferecido a José Sarney e Collor de Melo, contemporâneos de Raúl Alfonsin. Infelizmente, os presidentes brasileiros da época acabaram optando por alternativas mais rápidas e todas falharam. O congelamento de preços, que voltou a ser cogitado na Argentina, foi um desses artifícios que fracassaram.

Inspiração nas artes

Vem das artes, mais precisamente de Molière, a célebre frase: “Bem comido, a minha alma de nada quer saber. E nem os maiores desgostos a conseguem comover”. Estes dizeres possuem uma profunda reflexão e nos trazem à mente a questão da fome, a pior das chagas da inflação e dos governos populistas. Molière certamente não quis falar da fome, mas da plenitude, algo que as nações brasileira e argentina não conhecem já faz algum tempo. Possivelmente, quis dizer que um povo plenamente atendido em suas necessidades tende a viver imune a desgostos e comoções. Deixando a picanha e a cerveja de lado, sempre é tempo de combater as desigualdades.

O exemplo da placa

O Brasil ainda tem muito a melhorar, mas em comparação com outros países emergentes, tem boa economia e mostrou força na retomada pós Covid. Prova disso é que o novo governo preferiu um ministro político para ocupar o Ministério da Economia, que voltou a se chamar “Fazenda”. Um luxo, ousaria dizer, que só uma economia forte é capaz de permitir. E das propostas do novo ministro, ressurgiu das gavetas a ideia de unificar as moedas, a exemplo da “placa do Mercosul”. Mas faltam os propósitos. O que se pretende com isso? Salvar a economia argentina? Promover um “bloco de esquerda”? Na teoria, muito bonito, mas na prática, um tanto quanto perigoso. Como a bandeira, a moeda é também um símbolo nacional, assim como o nacionalismo também pode ser perigoso.

Molière

Na coluna de ontem, prometi que daria um tempo na política. Mas falar de economia sem tocar na política, é como diz a música de Belchior: “não se pode cantar como convém, sem querer ferir ninguém”. Por isso, sugiro pensarmos como Molière, com a barriga cheia e o coração tranquilo. O Brasil precisa de equilíbrio e plenitude. Nem pão nem circo, plenitude! Sem deixar heranças negativas para que ministros técnicos resolvam depois. O que querem, afinal? Se uma simples placa de carro já deu o que falar, imagine uma moeda comum.

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