Agulha, linha e cicatriz
Quem nasceu nos tempos da pós modernidade ou mesmo na tal “modernidade líquida”, talvez não saiba o valor de uma agulha e de uma linha. Tampouco já viu pedaços da própria carne ou de suas roupas costuradas por elas. As agulhas – e as linhas – possuem uma função importante na vida. Por mais que possam parecer descartadas do mundo moderno, elas são como a caneta e o papel, a registrar os feitos da nossa história. Seja a roupa – ou a própria pele – cada costura contém um registro.
Modernidade Líquida
Este é um termo utilizado pelo filósofo e sociólogo polonês Zigmunt Bauman. Nos anos 80, ele publicou a obra “Legisladores e Intérpretes”. Nela, o pensador profetizou muito do que vem acontecendo atualmente. Até mesmo os fenômenos do YouTube já eram previstos por ele. Em sua tese, Bauman previu que a sociedade daria cada vez menos importância aos intelectuais, relegando a estes o papel – à posteriori – de analisar os fenômenos sociais causados pelos formadores de opinião, hoje chamados de influencers.
“Influencers” de antigamente
Quando eu era criança, os influencers costumavam ser aqueles pestinhas, capetinhas, entre outras alcunhas dadas aos mais “arteiros”. Meu amigo Ronnie, que hoje completa 51 anos, era um desses “influencers”. Ele tinha uma frase imbatível, capaz de convencer qualquer covarde: “O que é a vida sem riscos...”. Então, era comum a piazada deixar fluir o excesso de energia vital por meio de atividades ditas indesejadas, o que os mais velhos chamavam – com um certo charme – de arte. “Fulano é arteiro”, diziam. E como as tais “artes” envolviam uma certa dose de perigo, volta e meia acontecia algum corte ou marca de percurso. Joelhos e cotovelos. No inverno, castigavam as roupas, no verão, a própria pele.
Conexão
Ouso pensar que este excesso de energia se dava por andar descalço, com os pés à terra e pela exposição solar. Basta ver. As crianças de hoje não têm cicatrizes, não andam descalças e não tomam sol. Vivem na tal modernidade líquida. Quando ficam jovens, no lugar das cicatrizes, preenchem seus corpos com tatuagens. Como Bauman previa, tudo perde o valor em muito pouco tempo e as agulhas e linhas parecem ter ficado no passado, como o “enxoval”, que as meninas davam início com seus belos “costureiros”.
Fechando as feridas
Para fechar uma ferida aberta é necessário “costurar” a própria carne. Dentro da costura, se bem feita a assepsia, ficam guardadas as memórias da arte. Sim, cada cicatriz dos tempos de infância guardam uma história. Quem mais cortes tinha, ou era azarado ou aprontou poucas e boas. Mas não tinha jeito. Se houvesse corte, necessariamente haveria agulha e linha. Os arranhões também não passavam despercebidos. Eram curados à base de mertiolate, que ardia mais que a ferida. Lembro de uma vez, que para cicatrizar rapidamente um corte na coxa, passei remédio de secar calos. Funcionou rápido e muito bem e pude retornar às brincadeiras no mesmo dia. Ficou o registro, na pele, que jamais me deixou esquecer das férias passadas em Criciúma, na companhia de meus primos de coração: Júnior, Daniel e Paulinho.
As feridas de hoje
Hoje, até mesmo os adultos mais velhos parecem ter medo das coisas. Resistem em fechar as feridas, como se o cerzir da agulha fosse lhe causar algum mal. Preferem conviver com os problemas, como se suas vidas dependessem deles. Parece até que as pessoas dependem das mazelas, das tragédias, daquilo que gera sofrimento. Talvez esta também seja uma das características da tal “modernidade líquida”. A vida é muito curta para ficar atrelada aos problemas. As feridas de hoje parecem estar só na alma. Bom mesmo era quando a gente se machucava de verdade. Ao final, saíamos orgulhosos, dizendo: levei cinco pontos! Ganhava - a vida - quem levasse mais pontos.