O barbeiro de Sevilla
Eis um belo exemplo daquilo que a gente ouve falar, mas não sabe bem o que é. Os mais cultos sim, dirão que “O barbeiro de Sevilla” é nada mais do que uma ópera do italiano de Gioachino Rossini, escrita no século XVIII. Isso me faz lembrar o que vi escrito na lataria de um ônibus de Sevilla, quando lá estive no último Natal: “Sevilla, muito famosa, pouco conhecida”.
O enredo da ópera
A ópera “O barbeiro de Sevilla” é uma comédia que conta a história do Conde de Almaviva. Um jovem, que além de rico, é muito bonito. Seu maior desejo é seduzir e conquistar a linda jovem Rosina. Neste enredo, surge a figura de Fígaro, um barbeiro da cidade, conhecido por ser alcoviteiro, intriguista e casamenteiro, que ao longo da peça cria confusões divertidas. Para os que são da minha geração, a lembrança que temos da ópera é um episódio do desenho Pica Pau, em que ele encena o Fígaro.
Os barbeiros
Contei recentemente, numa de minhas últimas colunas escritas no Brasil (04-10-2022), da importância dos barbeiros em nossas vidas. Força na peruca era o título. Nela, dizia que ninguém melhor do que o nosso barbeiro para segmentar nossa vida em meses. Falei o quão difícil é ter uma pessoa, que ao mesmo tempo, seja alheia à nossa vida e que saiba tanto sobre nós. Ao final, rendi meus mais sinceros cumprimentos aos meus barbeiros, em especial ao Melo. Aqui, nas terras de Cabral, que aliás ficam a pouco mais de 20 quilômetros de onde estou, num lugar chamado Belmonte, ainda não conheci o meu novo confidente, o que me levou a cortar os cabelos enquanto viajava.
O barbeiro de Sevilla
E como um bom contador, de formação ou de histórias, não pude me furtar em conhecer um “barbeiro de Sevilla”, na prática. Andei muito pelas ruas agitadas e apertadas da capital da Andaluzia. Não encontrava nenhuma. Queria e precisava aparar as crinas. Havia de tudo em Sevilla, menos barbeiros e isso me deixava macambuzio. Eis que numa dobrada, dessas esquinas que te intuem a mudar o rumo aleatoriamente, me vi em frente a uma casa chamada “La Navaja”. Não podia acreditar. Lá estava, a mais bela barbearia que já vi. E em Sevilla! Poderia ser o cenário da ópera, com certeza. Anotei o telefone e liguei marcando um horário.
O sapateiro de Bruxelas
Li recentemente as aventuras do Sapateiro de Bruxelas em sua experiência com o andarilho acima das nuvens. O sempre pitoresco texto de Alcides Mandelli Stumpf me fez lembrar como me senti quando entrei naquela barbearia. Assim como o bruxelense, me pus a admirar a decoração, a apreciar as coisas da vida. Uma verdadeira cena cotidiana, daquelas que o olho espiritual vê além do olho material, tal e qual li em sua coluna, a ponto de pedir licença para utilizar seus sempre poéticos termos.
Desdobramentos
Fui acompanhado da minha filha. Ao terminar, não tinha dinheiro suficiente para pagar. Só levava o cartão, que não aceitavam. Era um estabelecimento tra-di-cio-nal. Então, arrastando meu portunhol aprendido nas andanças por Uruguaiana, Rio Branco e Bernardo de Irigoyen, disse que voltaria para pagar, que precisava “levantar” o dinheiro no caixa eletrônico. Bastou dar menos de 10 passos. Os caixas ficam na rua e havia um, bem ao lado da barbearia.
A surpresa
Ao retornar, o barbeiro de Sevilla olhou-me e, com um sorriso no canto da boca, quase a debochar do meu sotaque espanhol, me disse, com aquela voz de DDD 54: Tu é gaúcho! Assim, de supetão. Então conversamos rapidamente, em voz baixa, em bom português. Talvez para que não o descobrissem. O tal barbeiro de Sevilla, que tanto procurei, era em verdade, de Caxias do Sul e tem o mesmo nome do famoso carrasco gremista, Jardel. Parei, respirei calmo e profundo e, por um segundo, fechei meus olhos e pensei: o barbeiro de Sevilla é gaúcho...não pode ser.