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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Contrastes de Gibraltar

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Na coluna de ontem, falei sobre o Estreito de Gibraltar, uma pequena porção – de água – que separa os continentes africano e europeu. Mas hoje vou falar de algumas curiosidades que envolvem esses dois povos, separados apenas por uma porção de águas de pouco mais de treze quilômetros.

No princípio

Os registros históricos dão conta que o povo fenício ocupou, alguns séculos antes de Cristo, todo o contorno baixo do Mediterrâneo, do lado africano. Depois vieram os mouros, provenientes da Mauritânia, também do norte da África. Daí vem toda a influência árabe na região, considerada estratégica geopoliticamente. O estreito é como um portão. Quem o domina tem condições de interferir quem pode acessar, por ali, a maior parte “terrena” do planeta. Para o outro lado, resta muita água e as américas. Por isso sua importância para a navegação e integração continental.

As primeiras misturas

Assim como o norte do continente africano era ocupado por povos de descendência árabe, o sul da Europa era ocupado por povos de influência romana, entre outros.  Não tardou muito para que os mouros, nômades aventureiros, cruzassem o Mar Mediterrâneo e invadissem a Europa. Em Sevilla, capital da Andaluzia, de onde escrevo hoje, são inúmeras as marcas deixadas pelo povo árabe. Mesquitas, com suas torres de cume quadrado, foram reformadas e transformadas em catedrais, quando da retomada da região pelos cristãos, após a queda do último líder muçulmano, em Granada, no ano 1492.

Dois mundos

Entre a religião muçulmana, do norte da África e os católicos, do sul da Europa, ficaram as águas do Mediterrâneo. Terras separadas pela lenda de Hércules. E é interessante o contraste entre essas terras tão vizinhas. No Marrocos, os habitantes falam três idiomas. O árabe, por essência, o espanhol, pela proximidade com o país vizinho e o francês, por conta da ocupação francesa, que durou de 1912 até 1956. A cultura marroquina é extremamente rica e os costumes muito arraigados. Ainda que de aparência séria, os marroquinos são alegres. Homens e mulheres ocupam o mesmo espaço, mas não se misturam. Do outro lado, a Espanha do sul é mais serena e misturada, bem diferente de Tanger. Se as marroquinas tapam todo o corpo, as espanholas passeiam com trajes sumários, mesmo em dias frios.

Costumes

Em Tanger, há diversos bares espalhados pelas ruas. Mas dentro deles não se encontram, nem mulheres, nem bebidas alcoólicas. Os marroquinos tomam chá e café. Seria a visão do inferno? Alguns diriam que sim. A beleza das mulheres, só se pode acessar pelos olhos e é recomendável não ficar olhando. O povo tem uma forte vocação comercial. Não há violência nem roubos. Há malandros, como em todo lugar povoado, mas é possível andar pelas apertadas vielas em qualquer hora do dia, que começa por volta das nove. Um povo acolhedor, mas que não abre mão de suas crenças. Onde quer que estejam, estendem seus pequenos tapetes para orar. É uma cena comum. Na alimentação, muitas especiarias, peixes e comidas naturais. São magros, com exceção das mulheres mais velhas, que andam rodeadas de crianças.

Influência de Alá

Em suma, além do Estreito de Gibraltar, o que separa esses dois povos são suas crenças. Ainda que pareça ser o mesmo Deus, cada um tem o seu jeito de se relacionar com o divino. Na Espanha bebe-se muito vinho e muita cerveja. No Marrocos bebe-se chá. A gastronomia espanhola em muito se parece com a brasileira, mas a marroquina parece ser mais saudável. Enquanto na Europa a liberdade é um elemento fundamental e individual, no norte da África a coletividade parece ser o mais importante. Mesmo assim, se percebe que, aos poucos, a influência liberal, o apelo ao consumo e a liberdade parecem penetrar nos mais ortodoxos padrões muçulmanos. O tempo dirá.

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