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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

O legado de Hércules

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Tem certas coisas na vida que a gente simplesmente tem de acreditar. Crescemos ouvindo dizer que, quando alguém morre, vai para o céu, mas no fundo não sabemos. Os mau comportados, ah, esses vão para o calor do inferno, e também não sabemos. É assim desde os tempos da Divina Comédia. A vida é cheia dessas coisas. O planeta Terra, todos sabem, é redondo, mas houve um tempo em que muitos continuavam a crer que não. Ninguém sabia dizer o que haveria depois. Até que alguém decidiu, empiricamente, correr este risco e provar o contrário.

Os pioneiros

Pitágoras, cerca de seis séculos antes de Cristo foi o precursor na ideia de que o planeta era esférico. Mesmo assim, demorou muito tempo para que a teoria fosse comprovada. Fernão de Magalhães, um astuto português, com financiamento espanhol, foi um dos primeiros a partir rumo a volta ao mundo, seu maior objetivo. Na mesma época, outros portugueses e espanhóis, descrentes da teoria da terra plana, partiram em direção às novas paragens. Graças a estes heroicos navegadores, como Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, a ideia de terra plana finalmente “caia por terra” e era comprovadamente sepultada, como parafraseia o meu amigo Artêmio: perfeitamente morto!

Ponto de partida

Mas há algo em comum nestas trajetórias. Um ponto no planeta, chamado Estreito de Gibraltar. Em suma, nada mais do que um pedaço – de águas - que separa o continente africano do europeu, de onde é possível avistar, de um, o outro. Assim como as águas insistem em não se misturar, como Rio Negro e Solimões, são gigantes as diferenças religiosas e culturais que se avizinham. Mas disso eu falo outro dia. E por falar em coisas gigantes, atribui-se a Hércules, a lenda de que o ele – o gigante - teria separado estas duas porções de terra. Mas há muito mais do que um estreito, uma separação. Gibraltar é uma interessante rota de convergência e passagem, como se fosse o umbigo do mundo.

De volta à Terra Plana

Em minhas andanças por estes pagos, por um instante, pude me colocar no lugar de quem acreditava na teoria terraplanista. Depois de retornar do Marrocos e cruzar o estreito, me pus a admirar o pôr-do-sol em Gibraltar, mais precisamente na praia de Tarifa, na Espanha. Então, pude entender o que se passava naquele tempo. O sol insinua realmente despencar no horizonte. Antes do último raio brilhar, há uma ilusão de ótica, como se fosse um degrau, uma espécie de parapeito do infinito, um muro protetor do inesperado, onde em um segundo, o sol parece cair no infinito. Não há nada para os dois lados. Fica evidente a impressão de que a terra é plana, enquanto a noite também cai. Um magnífico espetáculo da natureza, difícil de ser visto em outros lugares.

Crenças e provações

Se contrastarmos as ideias pré-concebidas, dessas que passam de geração em geração, com os feitos comprovados cientificamente, fica fácil abandonar as crenças. A ciência vai lá e “cientifica”. Basta ver que, não muito longe, mulheres menstruadas eram impedidas de lavar os cabelos, até que o período cessasse. Crianças, assim que nasciam, eram mumificadas em faixas por um longo tempo. Crenças que foram se pondo com o tempo, com auxílio da ciência. Porém, há uma questionável confusão humana: as crenças que a ciência não desfaz. Talvez por incapacidade de provar o contrário, por ausência de “contraprova”, ou quem sabe por resistência ou falta de interesse. Fica mais fácil dizer que algo não existe porque a ciência não comprovou, como aquela fatídica história da cloroquina, entre outras.

Até quando?

Questões espirituais costumam não produzir interesse econômico, a não ser pela exploração do turismo religioso. Não há materialidade que incentive a ciência em investigar os mistérios da fé. Seria por medo? Seria por incapacidade? Falta de recursos para a comprovação? Ausência de metodologia? Não sabemos. O que sentimos, em contrapartida, é que já é tempo de resolver estes mistérios. Até lá, os que duvidam das coisas divinas, merecem ser respeitados, como aqueles que, das pontas longínquas do Estreito de Gibraltar, observavam o sol sucumbir à imensidão do oceano, jurando crer que a terra era plana.

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