14°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

MARCOS LEITE.jpg

Histórias de condomínio

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Quem mora em apartamento, em condomínio, sempre tem uma história para contar. Nesse tipo de moradia, inevitavelmente, existe a figura do síndico. Aquele sujeito sisudo, de poucas conversas, capaz de tornar os corredores ainda mais sinistros, escuros e gelados. Mas como em toda a democracia, de tempos em tempos é possível mudar, de síndico ou de apartamento.

O síndico insensível

Este tipo de síndico, todo mundo conhece. É aquele sujeito de aparência fechada. Bigodudo. Sua casa funciona como um quartel. Seus filhos, são impedidos de brincar pelos corredores. Tudo em nome da ordem social. Tem de dar exemplo! Exclama em casa. As reformas do prédio são meticulosamente estudadas e discutidas com o conselho e as inovações tecnológicas são sempre vistas com desconfiança. É um tipo conservador, que leva à sério as contas. Não falta um centavo. O balancete está sempre em dia. Sua mulher vive lhe dizendo: larga essa merda! O silêncio e a ordem imperam no edifício. Digamos que é um chato, que pouco se parece com um ser humano. Ele é contra o som alto e fiscaliza tudo. Com o tempo, se torna um personagem, tão caricato que provoca a formação de uma “oposição” ao regime da ordem, do silêncio e das contas em dia.

Eleição de novo síndico

Ao final de seu mandato, percebem-se movimentações. Elas surgem na frente do elevador, junto à lixeira, na porta da garagem. Em pontos estratégicos. Os vizinhos passam a se visitar. Arranjam o tempo que antes não tinham. Acabam inconformados com a frieza do síndico e mobilizam-se para a escolha de um novo. Nenhum dos ativistas se propõe, mas alguém há de servir para derrotar o bigodudo. Mais um ano não! Chega de multas! Ditador! As pechas rondam os corredores. Até que surge um descolado, boa praça, pouco comprometido com posturas conservadoras. E como ninguém quer e ninguém gosta de ser síndico, o descolado vai para o páreo. E vence. Tem experiência. Já foi síndico nos mais de 10 edifícios em que morou ao longo da vida. Baita currículo, ninguém confere.

O novo síndico

Enfim, um novo síndico. Já se nota o pessoal a circular com mais tranquilidade pelos corredores. A alegria parece estar de volta ao logradouro. Retomam o chimarrão no saguão aos domingos, as famílias voltam a pensar em ter seus pets, que agora são vistos pelas dependências do prédio. Ninguém reclama do cheiro do xixi. Estavam saudosos, como um dia de sol quente no inverno. Em seguida, começam as melhorias. Obras! A primeira delas, a iluminação de Natal. Como ficou lindo o prédio, comentam os moradores, animados com o início da nova administração. O porteiro anda faceiro com o aumento recebido. Comprou uma bicicleta, elétrica! Até que um dia, assuntos mais sérios precisam ser discutidos. A compra de um novo elevador, cujo custo para consertar se aproxima de um novo e a reforma da fachada estão novamente em pauta, ao mesmo tempo. E o novo síndico apresenta os três orçamentos, na verdade seis, com valores pós pandemia.

O legado

O clima volta a ficar tenso. A poupança, acumulada com sacrifício nas últimas cinco gestões do bigodudo, já não é mais a mesma, foi consumida em pouco tempo. O clima descontraído dá lugar à desconfiança. Será que ele não está roubando? Se formos fazer todas as obras, o valor do condomínio vai parar nas alturas. Não há condições! Ele deu aumento para o zelador e a faxineira, muito acima da inflação! Sim, mas o prédio está feio. Nossos imóveis estão perdendo valor. A Dona Ana, do 201, não consegue alugar o apartamento. Teve de baixar o valor. Onde já se viu! E tudo vira reclamação outra vez.

Mais Platão, menos Prozac

Platão, muito antes do Cristo nascer, já dizia: “O castigo dos homens capazes, que se recusam a fazer parte das questões governamentais, é ter de viver sob o regime dos incapazes”. O futuro síndico do Brasil nem assumiu e já pretende estraçalhar com o “teto de gastos”. É um negacionista em matéria de economia, que é tão ciência quanto a medicina. Mas agora pode. Há muito estrago deixado pela pandemia. É como a história do condomínio. É da política. Deixar para tratar esses assuntos de quarto em quatro anos, dá nisso. Enquanto as pessoas não fizerem parte, não trabalharem também para os outros – além de si mesmas -  viveremos esses tempos de dualismo, de vai e vem. Essa gangorra que não faz ninguém sair do lugar. Enquanto o Brasil agoniza, em algum condomínio é hora da festa.

Blog dos Colunistas

Publicidade

Horóscopo

Leão
22/07 até 22/08
Previsões de 19 de dezembro a 25 de dezembro Sol e...

Ver todos os signos

Publicidade