O último beijo
Existem certos momentos na vida que a gente realmente não consegue lembrar. Isso acontece quando você está ligeiramente acostumado a fazer alguma coisa, mas de uma hora para outra, deixa de fazer ou é surpreendido com alguém, deixando de fazê-la. Foi o que ocorreu comigo na última sexta-feira.
Costumes
Se há algo que os “hermanos” argentinos têm de bom, entre outras virtudes, é a prática de cumprimentar os hijos (filhos) com beijos. Não importa a idade. Quando os filhos são pequenos, os pais sempre os beijam. Depois, quando crescem e tornam-se adultos, são eles que lindamente beijam seus pais. Não tem essa frescura de homem não beijar homem. Não há qualquer conotação sexual, é simplesmente um gesto, uma atitude de amor. Feliz de quem a pratica.
Minhas tradições
Desde que me tornei pai - e lá se vão de-zas-seis anos, como dizem aqui em Portugal - sempre beijei meus filhos, especialmente quando os deixava em algum lugar. Na porta da escola, à beira da cama, quando nos reencontrávamos. Podia ser uma volta na esquina. Tinha beijo. Despedidas seladas. Não era a distância ou o tempo, era a praxe. Só assim ficava fácil saber quando foi a última vez. E você, sabe quando foi que beijou seu pai, sua mãe, seus filhos pela última vez? Dá até um certo arrepio em saber que, num dia qualquer, assim, no más, cessarão os beijos, os abraços, as conversas, simplesmente por conta das vicissitudes da vida. E elas existem, e como! Eu vivi um pouquinho disso, em pensamento, na última sexta-feira.
O último beijo
Caminhávamos lado a lado, como bons amigos, eu e o Galo Cinza. Desde pequeno eu apelidei o Pedro com esta alcunha. O meu parceiro de espingarda. Cada um de nós seguia para o seu curso. Quando nos aproximamos de sua escola, ele avistou um colega, depois dois. Então, em frente ao portão, ele simplesmente me deu um “tchau pai”. Não interrompeu sua caminhada. Eu sim. Foi um adeus seco, simples e oco. Uma novidade desconcertante, será? Fiquei com algo preso na garganta e, rapidamente um enorme vazio se fez presente em mim. E o beijo? Refleti silente. Foi então que fiquei a pensar, quando teria sido o último beijo no Pedro. Mas o inesperado daquele momento não me permitiu lembrar. Pior, enquanto subia as ladeiras da Covilhã, com o vento frio a soprar, com aquelas folhas douradas de outono no chão, a ressoar cada um dos passos meus, senti um medo enorme de não mais poder ganhar seus beijos. Coisa de pai.
Quando será?
A vida da gente é assim. Cheia de últimas vezes. Sempre teremos o último beijo, o último abraço e, na maioria das vezes, nem saberemos se vai acontecer ou não. É o costume, a esperança. Esse fato da vida, que marca a maturidade dos filhos, me deixou pensativo. Me fez refletir o quanto é importante a gente manifestar carinho e amor com quem a gente ama. Um beijo, um simples beijo. Como tem valor! Sei que não foi programado. O Pedro não decidiu ser durão. Ele simplesmente cresceu. Assim espero, tal e qual aguardarei pelo dia em que, inesperadamente, ele venha até mim e me beije a testa. Só assim ficarei seguro de que ele cumpriu a jornada e chegou bem aonde deveria estar e de onde jamais sairá. Do meu coração.