O estigma de Maria Juana
Este bem que poderia ser um simples nome de menina. Um lindo nome de batismo, aliás. Mas basta que ela cresça para que um estigma a encontre em sua adolescência. A fase da vida em que as alcunhas ganham contextos mais picantes. Maria Juana, ou simplesmente marijuana, é como se chama a “maconha” na língua espanhola. Pior do que o estigma que adere a um segundo nome de Maria, há outro, o que envolve a o uso da Cannabis sativa (nome científico da planta da maconha). Foi o que descobri na última sexta-feira, quando participei de um seminário intitulado: Cannabis Medicinal versus Cannabis Recreativa.
Na História
Organizado pela Universidade da Beira Interior (Portugal), o evento reuniu os maiores especialistas no assunto, que abordaram importantes desdobramentos relacionados à cannabis. Curiosidade: há registros históricos de mais de dois mil anos antes de Cristo, em países como Índia, China e Egito. Os estudos referiam o uso da erva para tratar doenças oftalmológicas, náuseas, enxaqueca, entre outros males. Prova de que suas propriedades medicinais eram conhecidas há muito tempo.
Cannabis recreativa
O termo parece camarada, mas não foi bem isso que a comunidade científica mostrou. Por mais que um “baseadinho” possa parecer inofensivo, a maconha é a porta de acesso de drogas mais “pesadas”. Além disso, é vetor de doenças relacionadas ao seu consumo. Esquizofrenia, alterações cardíacas, câncer no pulmão, infecção fúngica por micotoxinas, hipospermia e psicose, estão entre os malefícios de maior frequência, sem falar da já conhecida letargia cognitiva, facilmente perceptível em alguns usuários da droga. A comunidade científica acabou confirmando – para o dissabor dos estudantes – que não há nada de recreativo no uso dessas substâncias. Questionados sobre o uso do álcool e do tabaco, os pesquisadores foram unânimes, no sentido de que não é porque duas substâncias são “legalizadas” que é preciso ter uma “terceira”.
Cannabis medicinal
Já a canabis medicinal, esta sim, apresenta uma gama de benefícios cientificamente comprovados. Pesquisas apontam que doenças relacionadas à epilepsia, glaucoma, enxaqueca, entre outras, são facilmente controladas através do uso do canabidiol, ou CBD, o composto ativo “do bem”, e que está presente nos óleos essencias da planta da cannabis. O uso deste fitoterápico em pacientes oncológicos também tem mostrado grande eficácia para debelar os efeitos residuais da quimioterapia. Há ainda, uma série de evidências para o trato de outras doenças, ainda em comprovação, incluindo a Covid. Mas infelizmente, por conta de sua origem, muitos médicos acabam por estigmatizar o uso do canabidiol. Como resultado, antes de iniciar com estes tratamentos, insistem em fármacos mais comerciais, enquanto o paciente se torna cobaia de sua própria doença e a indústria farmacêutica lucra com a desgraça alheia.
Separando as cannabis
O tetrahidrocanabidiol ou “THC” é o elemento químico que causa os efeitos entorpecentes e psicotrópicos nos usuários da cannabis recreativa (maconha). Já o canabidiol, ou CBD, também presente na planta, é o elemento bom. Todavia, fazer uso da droga fumada por conta do CDB, é como tomar vinho em quantidade e dizer que faz bem ao coração. A toxicidade decorrente do THC é a grande causa de dependência química em jovens e adultos. O canabidiol, segundo as pesquisas, não causa dependência química. Países como o Uruguai, conseguiram bons resultados com a legalização e controle dessa droga, mas os estudos europeus apontam para o risco de ter o aumento do consumo aumentado e com ele os problemas. Num país como o Brasil, me parece ser um desastre a liberação da maconha, só de pensar como seria no Rio de Janeiro, o precursor da malandragem.
O bem paga pelo mal
Por óbvio, não vim aqui para dizer que fumar faz bem ou faz mal. Isso todo mundo sabe. O que realmente chama atenção, é o fato de que a sociedade médica e política estigmatiza algo que é milenar, que está em toda parte e que todo mundo sabe. Pior, é que esse estigma não afeta o usuário da droga. Afeta sim, milhares de pacientes oncológicos e uma gama enorme de portadores de epilepsia, entre outras doenças. O CBD não é “do mal”. O THC sim. Em pleno século XXI, ainda é preciso acionar a justiça para se poder fazer uso do canabidiol (CBD), enquanto que para fumar um inofensivo cigarrinho de maconha (THC), basta andar por aí. Há sempre algum amigo, parente ou colega que conhece alguém que tem e não dá nada, como diz a gurizada. Pobre Maria Juana.