As Pedras Mouras e o Dia de Finados
Um pouco abaixo do Rio Douro, norte de Portugal, nas proximidades da Cidade do Porto, existe uma praia chamada de Lavadores. Reza a lenda, que havia uma “moura”, uma rapariga muito forte e bela, que diariamente resgatava enormes pedras de dentro do mar e as trazia até a beira da praia. Era um trabalho hercúleo contra a lei da natureza, pois as marés costumavam trazer as pedras de volta ao seu lugar. Até que, irresignada, a tal moura passou a sobrepor as pedras umas sobre as outras, onde até hoje podem ser vistas junto à praia.
Os Mouros
Ainda por volta do Século VIII, os mouros adentraram a península ibérica, que compreende os territórios de Portugal e Espanha. Tratava-se de um povo de origem árabe, que acessou a região a partir noroeste da África, passando pelo estreito de Gibraltar, chegando a região da Andaluzia, famosa por seus cavalos. Toda essa epopéia só foi possível graças ao apoio de um importante instrumento, justamente, do cavalo. Sem a ajuda desses robustos animais, a missão de conquistar o sul da Europa seria quase impossível. E vem justamente daí a expressão mouro e moura, que denomina até hoje a pelagem escura desses equinos.
De Portugal às quebradas do Inhanduí
Na cultura gaúcha temos a música “Canto Alegretense”, dos Fagundes, que faz referência à “pedra moura das quebradas do Inhanduí”. A exaltação da cultura gaúcha está no sentido de que as pedras mouras são aquelas encontradas no fundo do Rio Inhanduí e que são constantemente submetidas à correnteza, às dificuldades da vida, como o trabalho dos gaúchos que vivem no campo. São assim chamadas por serem escuras, como a pelagem dos cavalos mouros. Render homenagem aos lanceiros negros que tanto lutaram por liberdade também não seria má ideia.
As Pedras Mouras
Em Portugal também há muitas pedras mouras. Não apenas as da Praia de Lavadores, mas por todo o lado. Elas estão por todo lado. Têm origem nos muros que cercavam as cidades então dominadas pelos Mouros. Mas engana-se quem pensa que a palavra “mouro” provém de “muro”. Não, o termo deriva de Mauro, que significa escuro, numa alusão à Mauritânia, país do noroeste da África, que fica logo abaixo do Marrocos, junto ao estreito de Gibraltar e cuja população apresentava pele escura.
A reconstrução
Exatamente em um primeiro de novembro, no ano de 1755, Portugal foi varrida por um grande terremoto. Boa parte do país acabou ficando em ruínas e precisou ser reconstruído. Foi a partir das “pedras mouras” retiradas de seus muros, que muitas das cidades portuguesas foram reconstruídas, especialmente as do sul do país. Talvez esta seja a mais singela semelhança entre o povo gaúcho e o português: a resiliência.
Dia de todos os santos
Curiosamente, aqui em Portugal, o culto aos mortos se dá no feriado do dia primeiro de novembro, o chamado Dia de Todos os Santos. Estabelecido pela Igreja Católica, a data é dedicada à honra dos santos que não possuem seu próprio dia festivo. E com essa mistura cultural, com tantas semelhanças, com os versos do Canto Alegretense, rendo minhas homenagens a todos que por aqui passaram, que de alguma forma marcaram as nossas vidas e que hoje estão noutro plano:
“E na hora derradeira que eu mereça, ver o sol alegretense entardecer, como os potros vou virar minha cabeça, para os pagos no momento de morrer. E nos olhos vou levar o encantamento, desta terra que eu amei com devoção, cada verso que eu componho é o pagamento, de uma dívida de amor e gratidão”.