Vivendo, amadurecendo e aprendendo
Se tem uma coisa em que Portugal se destaca, é na produção e no consumo de vinhos. Na terra de Cabral, há incontáveis opções para quem aprecia esta milenar bebida. Mas vou tentar não falar de vinhos. Vou falar sobre como iniciar uma conversa. E, para começo de conversa, não há nada melhor do que a gente se sentir jovem, como se nosso fôlego fosse ampliado. Afinal, é sempre bom quando alguém se dirige a nós com um ar de jovialidade. No Brasil, se dirigir a uma jovem senhora com o adjetivo “moça” costuma ser aprazível e não raro arranca sorrisos no começo da conversa. Mas em Portugal não é bem assim.
Os vinhos e as moças
E como falava em vinhos, em Portugal o vinho recém fermentado é chamado de “vinho verde”, dando entender que ainda não amadureceu, portanto, jovem e não maturado. Por óbvio, quando queremos iniciar uma conversa com algum desconhecido, não o chamamos educadamente de verde. Meu amigo Tadeu, palmeirense de coração, adoraria esse tratamento. Todavia, quando se quer ser educado, é comum iniciar conversas com as expressões moço e moça. Isso costuma arrancar sorrisos, especialmente com as senhoras, fazendo-as se sentir valorizadas, rejuvenescidas por um simples adjetivo, como se fosse um pronome de tratamento.
A origem do termo
A etimologia da palavra, moço (e moça), provém do latim mustum, que significa mosto. Este, nada mais é do que a fase mais importante no preparo de uma bebida. É assim com o vinho e a cerveja. No primeiro, um mosto de uvas viníferas e na segunda, um mosto de cereais maltados. Por isso que nós, cervejeiros, não fazemos cerveja, fazemos mosto. Quem faz a cerveja – e o vinho – são as leveduras. Logo, o mosto está para o vinho e a cerveja como a juventude está para as pessoas. No caso das bebidas, a maturidade vem com o tempo, com a maturação, transformada pela ação das leveduras. Para nós, humanos, o amadurecimento não é muito diferente. Ele é fruto da vivência, da assimilação da cultura e das experiências da vida, daquele arredondamento, daquele polimento que os constrangimentos vão nos ensinando.
A conotação equivocada
Considerando a etimologia, não haveria nada de errado em chamar alguém de moço ou moça. Mas aqui em Portugal, por conta da cultura, esse termo parece ser entendido mais pela fermentação, numa alusão aos hormônios sexuais que explodem na juventude, do que propriamente à juventude em si, como ocorre no Brasil. Assim, chamar alguém de moço ou moça, em Portugal, é como dizer que a pessoa está “pegando fogo”, na expressão de sua energia sexual, o que realmente não pega bem. Mais curioso ainda, é que os meninos e meninas costumam ser chamados de putinhos e putinhas. Vai entender...O espaço aqui é curto para essas divagações etimológicas.
Vivendo e aprendendo
O fato é que, até eu descobrir a origem desse termo, nenhum de nós conseguiria mudar a forma educada de tratar as pessoas desconhecidas. Até porque, quando a gente muda de lugar, todos são desconhecidos. Mas, de agora em diante, pedagogicamente, antes de iniciar qualquer aproximação com alguém, por mais educado que eu queira ser, vou sempre lembrar da fermentação e dos hormônios. Olharei para os habitantes desta terra como se fossem vinhos. Definitivamente, vamos adotar os tradicionais adjetivos: senhor e senhora. Esses fatos, comezinhos, explicam porque o velho mundo é mais “maduro” que o nosso alegre Brasil. Tem ocasiões em que menos é mais. Esta é uma delas. Vivendo, amadurecendo e aprendendo.