O lado bom do mau-olhado
Se me perguntassem sobre uma coisa estranha que me lembro, dos tempos de guri, direi que era um chaveiro de figa, dependurado no retrovisor do Dodge Polara AY 0157 do meu pai. Essa foi a primeira vez na vida que ouvi falar desse tal de mau-olhado. Meu pai se referia a ele como “olho gordo”. Para quem é jovem e desligado dessas culturas mais antigas, podemos traduzir como inveja. E a figa? A figa é uma imagem, de uma mão com os dedos fechados, onde o dedão perpassa o indicador e o dedo médio. Nada mais.
Simbologia dos amuletos
Assim, em matéria de espiritualidade, quem acredita na influência das más energias, não raro faz uso de certos amuletos. Galhos de arruda, pimenteiras, sal grosso, farradura e o tal de olho grego são alguns dos exemplos conhecidos. Funcionam como um para-raios. Indicam que aquela pessoa ou ambiente estão “de olho” no invejoso. Trata-se de uma forma de comunicação não verbal, onde cada cultura tem a sua forma. E foi por acaso que acabei descobrindo, que na Portugal antiga, as mulheres ensinavam suas filhas que o mau-olhado entrava pelos ouvidos e pelo peito. Provavelmente pelo que se escutava dos outros e pelo chacra coronário, o centro de força do nosso coração, já numa visão mais holística. Que interessante, pois estou – a falar – de um tempo em que, embora a vida fosse precária nas aldeias, no campo, a cultura já exprimia a sabedoria de outras dimensões.
Amuletos camponeses
Na tradição das antigas mães portuguesas, haviam dois objetos contra o mau-olhado: o par de brincos e o colar de contas, feitos de ouro. Você pensou em ouro brasileiro? Eu também. Ranço nosso, coisa do passado. Assim, os brincos eram colocados nas meninas logo ao nascer. Tinham a mórbida função de servir de poupança para os atos fúnebres, caso a criança fosse vencida pela frequente mortalidade infantil. Entristece saber que seria com a venda deste adereço que os pais pagariam a mortalha e o funeral. Já o colar de contas, era usado um pouco mais tarde, ainda antes de a menina se tornar moça, mas nunca use este termo aqui em Portugal. Outro dia eu conto como isso pode dar até caso de polícia. Então, o colar de contas, além de ensinar economia, compunha também o dote para um futuro casamento. Curioso é que as próprias meninas faziam por ele. Não era um presente, era uma acumulação paulatina e uma forma rudimentar de ensinar contabilidade.
O colar de contas
Logo que a filha dos camponeses começava a acompanhar sua mãe nas feiras de produtos agrícolas, a mãe lhe presenteava com uma galinha poedeira. Caberia à filha cuidá-la e se encarregar da venda dos ovos que sobravam da subsistência. À medida que os excedentes eram vendidos, eram adquiridas as “bolinhas de ouro” do colar, as chamadas “contas”. Desse modo as mães ensinavam as lidas e a função econômica das mulheres. Prova de que sempre buscaram sua independência do jugo masculino. Então, com o passar do tempo e com a venda dos ovos, o colar ganhava mais e mais “contas” e quando estivesse completo demonstrava que a jovem (moça não!) estaria pronta para vida conjugal. E o olho gordo? Ah, talvez fosse uma desculpa para que as meninas trabalhassem desde cedo. Deviam ser realmente assustadoras as histórias contadas por suas mães sobre a inveja.
É preciso rastejar
Entrar em contato com novas culturas sempre engrandece o conhecimento. A mudança nos faz trocar a pele, como fazem os répteis. Inevitável não falar sobre Portugal em minhas próximas colunas, considerando que estarei em contato com uma nova cultura, que por mais que seja nossa ancestral, difere-se da brasileira, gaúcha e, quiçá, do Alto Uruguai. Depois de um final de semana de arrumações, inicia nesta semana nossa jornada pela terra dos descobridores. E o que será que eu, réptil aprendiz, irei descobrir? Isso a gente vai acompanhar daqui para frente. Até amanhã, que agora vou atrás da minha galinha!