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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

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Colonoscopia

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Depois de quase dez anos vivendo longe de Porto Alegre, meu retorno à cidade natal proporcinou reencontros interessantes. E nessa revisão de vida, não visitei apenas os equipamentos da cidade, que estão muito melhores, mas sobretudo as pessoas que sempre estiveram em minha vida. Infelizmente não consegui estar junto de todos. Afinal, escolhas também são renúncias, de ambos os lados.

O Clube de Cinema

Meu irmão Márcio é velho habituê do Clube de Cinema de Porto Alegre. Durante todos os anos em que vivemos próximos, nunca me convidou para participar. Seria uma falta da parte dele? Sim, sem dúvida, mas isso eu só descobri no último sábado, quando ele finalmente me honrou com o convite. Foi então que revisitei a Casa de Cultura Mário Quintana, um dos lugares mais históricos e icônicos da velha e da moderna Porto Alegre. E sábado de manhã, lá estávamos, na pequena e aconchegante Sala Eduardo Hirtz, como os antigos cinemas de rua, que por décadas quebravam a rotina dos moradores das cidades. Até me pus a imaginar como era o cinema do Pedrão, na antiga Vila Alegre, hoje Entre Rios do Sul.

A importância do cinema

Comparar a vida como um filme. Esse período que antecede a minha partida do Brasil, em duas semanas, se tornou palco da revisão da minha própria existência. Mas voltando ao filme, assistimos uma produção tripartite entre Brasil, Argentina e Uruguai: La Teoria de los Vidros Rotos (2021). Rotos significa quebrado. Um lindo filme, simples, despretensioso e leve. Sobretudo, reflexivo, como tem sido o meu momento. Por trás de toda a sétima arte, uma interessante teoria. Em resumo, um estudo que mostra que se algo se encontra perdido, mas “em ordem”, nada lhe acontece, mas basta um pequeno dessarranjo com o ambiente para que as coisas ruins possam acontecer. Mais ou menos isso. Veja o filme e entenderás.

Cuidado com os vidros

E na pegada de “a vida imita o vídeo”, nesse exercício de revisitar as coisas, aprendi que quando alguma coisa não vai bem, é preciso cuidar de nossas vidraças. Mesmo que estejamos parados, estagnados, por vezes um pouco perdidos, doentes, aguardando uma solução, é preciso manter o cuidado. Vigiar. Novamente essa palavra. Segundo a teoria, o verdadeiro problema acontece quando nossos vidros ficam rotos, quebrados. É por alí que entram atitudes e maldades. São as comorbidades da vida. É como se não padecêssemos do mal originário, mas simplesmente de nossa desatenção, pois dela decorrem desdobramentos piores.

Final feliz

E neste último domingo, encontrei – pela segunda vez no ano – e talvez pela quarta ou quinta vez na década, uma amiga dos tempos da Orquestra da Zona Sul. Depois de uma longa conversa, soube de sua luta contra um câncer de mama. Jovem, bonita, hoje com cinquenta anos. Contou todos os detalhes da sua luta e de como neutralizou a situação. Me fez lembrar do filme e da importância de aceitar os desafios e dissabores da vida, sem deixar de manter os vidros intactos. Final feliz no filme dela, assim como também fui feliz na minha experiência com esse tal de câncer. Mas e a colonoscopia? No nosso caso, é só mais um dos novos assuntos que passamos a conversar, à medida que vamos envelhecendo. Talvez, uma forma de manter os nossos vidros bem cuidados. Como há um ano escrevi, na música de Hermes Aquino: “eu sou nuvem passageira, que com o vento se vai, eu sou como um cristal bonito, que se quebra quando cai”...E que minha amiga Patrícia, que amanhã estará de aniversário, tenha muitos anos de vida plena!

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