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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Aprendendo com os cães

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Faz seis semanas que deixei Entre Rios do Sul. É pouco tempo, eu sei. Como não voltarei tão cedo, as memórias já parecem estar perdendo o seu tamanho. A sensação me parece clara: na medida em que as imagens diminuem, aumenta a saudade. É como um elástico, que ao invés de esticar, aperta o coração. Sei bem onde ele aperta.

Traumas de infância

Quando era criança, passei por um processo semelhante, para não dizer igual. Eu tinha um ano a menos que meu filho Pedro, hoje com 11. Deixar a casa da minha infância pela promessa de morar em um apartamento, em um bairro novo, com mais chance de ter amigos, parecia animador. Até aí, tudo bem. Mas e os meus cachorros? Essa era uma pergunta que não tinha resposta. Sim, meu pai doara os nossos para famílias que cuidariam deles, tão bem ou melhor que nós. Na teoria funcionou, mas eu nunca mais os vi.

Deixar meus cães foi a maior perda que tive na infância. Sei que fui afortunado, porque perder um cachorro é menos dolorido do que perder o pai, a mãe ou um irmão. Mas eu sofri muito. Não sou hipócrita, sei que aos dez anos a gente não tem esse nível de entendimento. Na infância a vida tem outra dimensão. Eu não sentia apenas falta dos cachorros. Sentia falta do amor incondicional que eles dão. Cresci com uma mágoa no peito, em silêncio. Um silêncio temporário que perdia apenas para as minhas lágrimas, a limpar minhas feridas internas. Por algum tempo, era como se existisse um quebra-molas em minha garganta. Talvez em respeito aos meus cachorros, eu mesmo impunha uma difícil tarefa de engolir a realidade, uma espécie de penitência. Até que passou. Será?

Os dramas se repetem

Passaram-se os anos, as décadas. Somente agora pude entender e aprender como uma mágoa pode resistir a tantos anos. Ela estava lá, escondida, talvez perdida num canto qualquer da memória. Até que, infelizmente, chegou o dia em que tive de fazer o mesmo que meu pai, só que bem pior. Mudar de cidade, de país e doar nossos cachorros. Não eram dois, como outrora. Eram seis. Ainda criança, havia jurado a mim mesmo, que jamais passaria por isso outra vez. Mais grave, havia prometido para minha alma que jamais faria isso com meus filhos. Falhei feio. Fiz bem pior. Pior ainda, é ter de segurar as pontas agora, depois de ter carregado esse mau legado por tantos anos, de ter creditado esse fato negativo ao meu pai. A vida é sábia demais. É por isso que não podemos julgar, muito menos condenar.

Preciso de um lar

Eis que sonhei que estava de volta a Entre Rios do Sul. No sonho, corria para ver os cachorros. A casa não me interessava mais. Fui atrás deles, direto ao canil. Nem reparei no entorno, nas árvores, nas flores, na casa. Ao entrar no canil, vi apenas os potes de água e ração, vazios. Havia alguns cocôs pelo chão, uns secos outros nem tanto. Demonstravam que não fazia muito tempo que haviam saído. Me vi então diante de um enorme vazio. Eram meus cães que me abandonavam agora, no sonho. Tal e qual eu fizera com eles, em vida. Pude dimensionar, talvez, o que eles sentiram quando da nossa partida.

Passado o pesado sonho, ainda persiste uma enorme pendência: encontrar um lar para um de nossos labradores, que ainda está na casa e bem cuidado. Precisa de novos donos. Uma fêmea, seis anos, preta. Ainda não encontramos uma família para ela. Permanece lá, estranhando, observando os passos dos tutotes provisórios. Estaria ela acreditando que vai ficar? Infelizmente não. E o tempo está passando. Por isso falhei. E esta falha me machuca sutilmente, lá no fundo, justamente onde residem as memórias do passado. Quem sabe, algum leitor, conheça alguém, que também conheça alguém, e que queira adotar essa linda labradora...Ainda tenho esperança. Preciso de um lar para parte do meu coração. Um final feliz, quem sabe?

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