O coração de Pedro
Talvez eu não seja o único que eventualmente confunde os Pedros, o pai – primeiro – e o pequeno imperador, o segundo. De certa forma, o primeiro foi o protagonista da Independência do Brasil, ao passo que o segundo, o da República. Mas o que guardam entre si esses dois expoentes da História do Brasil?
O coração de Dom Pedro Primeiro
Dom Pedro Primeiro foi um sujeito, digamos, excêntrico. Ao mesmo tempo em que desbravou o Brasil montado no lombo de mulas, vivendo seu governo com parcas condições, tinha fama de mulherengo e bonachão. Junto a ele, o acompanhava um amigo de festas, o Chalaça. Em sua companhia Dom Pedro levava uma vida desregrada, que fugia aos padrões solenes da monarquia. Contudo, esse desvio não o impediu de cumprir sua nobre missão. Governou o Brasil como poucos. Confrontou os portugueses, fez alianças importantes, enfrentou guerras e contrariou, até mesmo, sua própria família. Realmente um sujeito muito diferente para os padrões da época. De certa forma, imprimiu ao povo brasileiro, essa tal de malandragem que até hoje é marca registrada de nossa gente, essa capacidade de resistir em meio às dificuldades.
O coração de Dom Pedro Segundo
Diametralmente o oposto de seu pai, Dom Pedro Segundo era um grande coração. Estudioso, delicado, finamente educado, tornou-se imperador ainda criança, quando sua família o abandonou à sorte da corte e retornou fugida para Portugal. Talhado desde a tenra infância, Pedro Segundo era um sujeito à frente do seu tempo. Era fluente em vários idiomas e mantinha fortes laços diplomáticos. Na Exposição Internacional de 1876, nos Estados Unidos, fez amizade com o renegado inventor do telefone, que expunha seu experimento de forma acanhada. Como entusiasta da revolução industrial, o Brasil foi um dos primeiros países a dispor deste importante serviço, méritos do Imperador Pedro Segundo. De semelhança com seu pai, tinha a transgressão, a exemplo dos ideais republicanos, que contrariavam sua linhagem imperial. De certa forma, se o Brasil é hoje uma república, muito se deve ao tempo em que esteve à frente do governo brasileiro. Entrou para a História como um homem muito virtuoso, em que pesem alguns deslizes morais, comuns aos homens da época. Coisas da genética e da epigenética.
Entre dois corações
Ao compararmos os Pedros, pai e filho, não restam dúvidas. Eram pessoas de personalidade muito diferentes. Mesmo assim, em que pese o regime monárquico e hereditário em que viviam, foram dois expoentes da história brasileira. Agora, com a aproximação do bicentenário da Independência do Brasil, as comemorações se voltam ao pai, tido como responsável pelo movimento que emancipou o Brasil de Portugal, em 1822. Mas em matéria de coração, não há dúvidas: o virtuoso foi o segundo. É pena que não saibamos reconhecer a importância do segundo Pedro e seu comando para que o país se tornasse uma república, antes mesmo de Portugal.
O legado dos imperadores
Quanto ao legado, entre as virtudes do segundo e a fama do primeiro, parece mesmo que o povo brasileiro escolheu o pai. Talvez, muito de nossa gênese, dessa brasilidade, da malandragem de nossa cultura, devamos ao imperador Dom Pedro I. E o que esperar da república? E o que esperar de nossos futuros governantes? Ao que parece, realmente, essa tal brasilidade é genética, epigenética. E, sendo a democracia um regime de maiorias, pelo menos na hora do voto, há de prevalecer, por muitos anos, a herança de Chalaça, em detrimento das virtudes do menino imperador. Isso nos leva concluir, em termos, que ser brasileiro é, sobretudo, ter a capacidade de rir das próprias tragédias. Vida que segue.
Aproveitando, quem me lê em Porto Alegre, amanhã, primeiro de setembro, estarei lançando meu livro, Página 6 – Descolunando. Desta vez não será na Agridoce, mas na Livraria Santos do Barra Shopping Sul. Apareça por lá!