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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

O vendedor de alianças

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Quinta-feira da semana passada, reencontrei um velho amigo. Em verdade, meu mais antigo amigo. Era fim de tarde e o convidei para algo inusitado: comer um cachorro-quente do Rosário. Quem é de Porto Alegre conhece a história desse estabelecimento. É um lugar como outro qualquer, desses em que a gente come na rua, mas com uma história que ultrapassou décadas e gerações.

A abordagem comercial

Sentamos na calçada. Eu havia levado umas cadeiras de praia dentro da Kombi. Anoitecia e ao nosso redor uma infinidade de gente corria de um lado para o outro. E nós, saudosos de uma boa conversa, aguardamos a cidade se acalmar e escurecer para então seguirmos ao nosso destino. Sem pressa. Até que em nosso caminho, entre outras esquisitices, cruzou um vendedor de alianças. Ele se aproximou, abriu a caixa, vermelha, e dentro dela, reluziam duas respeitáveis alianças. No momento, não demos atenção. Primeiro, porque já somos casados e ostentamos este símbolo em nossos anelares esquerdos. Em segundo lugar, porque ali, no meio da praça, não é lugar para se vender alianças. Estávamos muito mais preocupados com nossa conversa do que com qualquer acontecimento do entorno.

O desenrolar da história

Depois daquilo, esquecemos, deixamos a praça e rumamos para casa do meu amigo. Sequer nos demos o trabalho de analisar os fatos, conjecturar o acontecido e filosofar sobre o uso deste adereço. Mas eu confesso ter ficado encafifado com aquelas alianças. Seriam elas, roubadas? A aparência de nova levava a crer que o vendedor, que tinha toda a pinta de malandro, pudesse estar vendendo mercadoria roubada. Porém, fazer esse mau juízo - pré conceituoso do sujeito – que foi muito educado, também não seria correto. Afinal, as aparências enganam ou não? Impossível não pensar que seriam roubadas. Mesmo assim, poderiam ser alianças de um casamento desfeito, ou que lamentavelmente não chegou a acontecer. Uma viuvez precipitada, quem sabe? Seriam planos frustrados? Não demos trela ao vendedor, mas certamente deveria haver uma grande história por trás daquelas alianças, caso não fossem objeto de furto.

Ativo emocional ou financeiro?

O fato é que esse episódio me fez pensar muito a respeito do que uma aliança simboliza. Eu utilizo a minha, sou bastante apegado a ela. Até quando faço ressonância magnética, insisto para que fique em meu dedo. Tampouco, jamais imaginaria a minha aliança ser tratada novamente como mercadoria, como poderia ser o caso daquele malandro. Mesmo assim, as alianças são mais que um símbolo e uma tradição. Há toda uma aura que as envolve, pelo menos enquanto o casamento ou a relação estiver viva. Logo, o valor deste adereço não guarda relação com o bem, em si. Ninguém compra uma aliança porque acha bonita. Para isso existem os anéis.

Como as araras e os lobos

A natureza é bastante sábia. Alguns animais, por exemplo, são fiéis em seu casamento e, tampouco precisam demonstrar a união por meio de símbolos e adereços. É o caso dos lobos, dos pinguins e das araras vermelhas. Diferente dos tucanos, são fiéis e não comem os ovos das outras aves. Curiosidades da natureza. As corujas e os cisnes também adotam tal comportamento monogâmico. Mas o bicho homem não. Ele precisa demonstrar, como se por trás de toda a engrenagem que envolve o seu relacionamento, habitasse um certo temor, uma sombra, prestes a eclodir quando algo não anda bem. Nós, homens, precisamos aparecer, precisamos demonstrar. São flores, são mensagens, presentes e outras coisas. Como se fosse necessário soprar brasas para aquietar os medos.

Afinal, pra que servem as alianças?

Jamais saberei o que se passou por trás da história daquelas alianças. Também duvido que alguém que as comprar, assim, no meio da rua, desejará realmente constituir uma relação sólida e verdadeira, como os pinguins. Por certo não dirá que as adquiriu em frente ao Cachorro do Rosário. A relação já estaria condenada pela mentira ou pela excentricidade. Bem ali, em sua gênese. Por óbvio, não será uma nota fiscal que dará a garantia à quem receber a proposta de casamento. Reciclar é necessário. Há tantas coisas mais e que uma simples aliança não é capaz de sustentar. Afinal, o bicho homem tem essa característica, de tornar complexas, todas as coisas simples da vida.

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