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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

O bom senso do Censo

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Cento e trinta milhões. Eis a população do Brasil quando entrei na escola, num março qualquer, em 1980. Era também o que dizia o censo daquele já distante ano. Antes desse, no de 1970, temos a lembrança que vem da música da Copa do Mundo: 70 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a Seleção! Em 10 anos, um crescimento de 60 milhões de habitantes. Em termos percentuais, 85%. Coisas da estatística, esse ramo da matemática do qual a ciência se baseia e que muitas vezes foge à lógica, ou simplesmente ao bom senso.

A recenseadora

Estes dias, reparei numa senhora que caminhava perto de minha casa. Era uma recenseadora. A pessoa encarregada de visitar as moradias e lançar os dados para o sistema do Censo IBGE 2022, atrasado por conta da Pandemia. Parei e conversei com ela. Esbanjando imensa vitalidade, aos 74 anos, contou-me que perneava por aí, exercendo o seu temporário ofício com uma boa vontade de causar inveja a muitos jovens, de 60, 50 ou 40 anos. Os de menos idade já vieram desprovidos, seja da inveja, seja da vontade de exercer tais ofícios. Coisas da minha estatística puramente inferencial. Me disse ainda, que em casa, ficaria mais velha, improdutiva e infeliz. Combinamos então, que no dia em que fosse me visitar, tomaríamos um café.

Censo aos domingos

Chegou o dia. Eram quase 19 horas. Ouvimos um barulho no corredor. Era ela, a recenseadora. A Dona Rosa, batendo de porta em porta em pleno domingo, Dia do Senhor. De certo não é adventista e esta foi a única coisa que dela descobri. Não quis o café. Foi extremamente profissional. Da porta de casa, manejou seu aparelho de tela touch com a destreza dos adolescentes. Ansioso por perguntas, me preparei para atendê-la, como se estivesse voltando ao tempo das aulas de OSPB e Geografia. Foi então que me frustrei. Esperava, desde 1980, participar da estatística, mas o algorítimo do programa me reservou perguntas tão básicas que passei a desconfiar da importância deste trabalho. Digo isso porque teria muito a contribuir, mas nada de relevante me foi perguntado.

As perguntas

Em respeito à recenseadora, mui digna mulher, deixei minhas frustações de lado. Estava feliz em poder colaborar, por mais que nenhuma pergunta relevante tivesse sido feita. Prefiro dizer que, nas palavras dessa senhora, de cabelos brancos, ao ser perguntado pela minha cor, deixou escapar um único comentário, de que ao abordar casais modernos, nem sempre as respostas vinham com amorosidade. Foi a única interação dela, que sequer me cobrou o tal café. As perguntas, que de nada servirão (na minha opinião) não eram estatísticas. Nome, sobrenome e idade, não servem para nada.

As não perguntas

De perguntas, mesmo, foram apenas três: quantas pessoas moravam na casa e se alguém havia morrido nos últimos três anos, além do número de banheiros. Não perguntou se eu trabalhava e não perguntou a escolaridade de ninguém. O sistema tampouco quis saber se em minha casa viviam pessoas com deficiência, mas quiseram saber qual a minha renda. Essa foi, praticamente, a única pergunta estatística. Pareceu não ser importante saber se eu trabalhava e qual o meu ofício, mas sim o quanto ganhava. Típica pergunta para um ladrão, por exemplo, como se o ganha pão de cada um não fosse importante. Frustrante. Entendo que é um programa de estatística, mas poderia haver uma pergunta inicial: você está disposto a responder ao modelo completo ou simplificado? Fica a dica.

Estatística

Esta foi a minha frustrante experiência com o Censo. Esperei 40 anos por ela. Entrei para as estatísticas apenas com meu nome, sobrenome e membros da minha família. Dei meu CPF, por opção, e informei minha renda. Tenho certeza que se o IBGE oferecesse ao Google ou ao Serasa a mesma pesquisa, os custos seriam muito menores. Por hora, confesso que fico sestroso com essas pesquisas. O mesmo vale para as intenções de voto.

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