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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Por que esquecemos?

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Eu tenho uma prima que faz aniversário a cada dois anos. Pior, ela não nasceu num 29 de fevereiro qualquer. Invariavelmente esqueço o aniversário dela, 11 de agosto. Isso é tão marcante que Deus me deu um filho, justamente neste dia. Mesmo assim, eu torno a esquecer.

Facebook

Recentemente, para ter acesso a alguns conteúdos, criei uma conta no Facebook. Não gosto dessa rede social, por implicância. É uma daquelas teimosias que temos na vida, quando nos limitamos a fazer algo que desconhecemos e, por destoar da maioria, passamos a dizer que não gostamos. Quando era criança, quando não queria provar determinada comida, eu também dizia que não gostava. Feijão mexido, por exemplo. Não posso nem ver. Mas voltando ao facebook, ele tem suas vantagens, dentre elas, informar os aniversários dos nossos amigos, sejam eles os verdadeiros, os antigos e os virtuais.

Esquecimento

O fato é que nem sei se minha prima é, ou não, minha amiga no Facebook. Eu pouco interajo por lá. Não posso aparecer, assim, lépido e faceiro, de repente da rede social. Foram anos de obscuridade, de resistência. Então vou devagar nesse tal de Face. Como o feijão mexido, minha prima Aline também já representou resistências em minha vida. Filha de Dolores (já escrevi sobre ela), Aline precisava passar o dia – e algumas intermináveis noites – na minha casa, quando era bem pequena. Tudo para que minha tia pudesse trabalhar. Esses desafios que a maternindade impõe, especialmente quando se é mãe, pai e provedora universal. Nas noites em que deveria dormir lá em casa, ela resistia, acordada. Nem ela, nem ninguém dormia. Chorava, como uma fotocélula. Só parava quando o dia clareava.

Marcas da infância

Meus pais contam (e eu lembro) que eu ficara cego por conta dela. Até ao médico me levaram. Em verdade, eu tinha sono. A cegueira eram pálpebras pesadas. Mas o tempo passou, e com os anos, minha prima Aline se tornou uma mulher muito especial. Filha, mãe de duas crianças, diretora de centenas delas, esposa e...prima. E eu, com quase 50 anos, sigo esquecendo o seu aniversário, por quê? Talvez seja por conta dos tempos de infância, da nossa criança interior. São forjas de nossa vida, que por uma razão ou outra, arrastamos para a vida adulta. Só pode ser isso. Sou pessoa de boa memória, não poderia esquecer esta data. Imagino que o meu medo, lá no fundo, era de estar no lugar dela, de ter minha mãe separada de mim para ter de ir ao trabalho. Só pode ser isso. Medo de rejeição. Um exercício de empatia, na prática.

Razões para esquecer

A nossa primeira infância revela muitas coisas em nossa vida. É um jardim de muitas experiências. Quantos comportamentos da fase adulta são repetições da infância? Sem dúvida, um simples e imperdoável teimoso esquecimento tem sempre uma razão de ser. E hoje, dia em que escrevo esta coluna, véspera do dia dos pais, começo meu dia pensativo. Por certo que vou descobrir fatos de minha infância e que me ajudarão na fase adulta. O aniverário da Aline é, portanto, uma chave. Ocorre que a gente só descobre a utilidade desta chave, se estiver disposto a se conhecer mais a fundo. A recompensa pode não ser boa. Perguntas merecem respeito, pois dela decorrem as respostas. Mas se eu descobrir, saberei, que dali em diante, não esquecerei mais o aniversário. É o sinal de que superei o que era preciso. Feliz Dia dos Pais...atrasado!

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