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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

O novo alcoolismo

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Quem já sofreu dessa cadenciada e silenciosa doença ou mesmo teve ou tem um familiar que dela padece, sabe quão desastrosa e perigosa ela é. Famílias são destruídas, empregos e carreiras que se vão. Casamentos terminam. O alcoolismo é, sobretudo, uma doença social. Porém, mais do que silenciosamente, mas absurdamente aparente, vejo surgir uma nova doença social: a farmácia. Melhor dizendo, as farmácias.

Nas ruas de ontem

Houve um tempo em que nas quadras, nas ruas, haviam bares a satisfazer os desejos dos alcoolistas. Eram ambientes muito frequentados. Seus fregueses sentiam-se em casa. Os mais equilibrados, o tinham como uma espécie de consultório. Eram ambientes focados em tranquilizar as fragilidades, especialmente as masculinas. Quantas resoluções surgiam nas mesas dos bares. É certo, também, que nesses ambientes os bêbados encontravam guarida para a manutenção de seus vícios e os bares funcionavam também como drogaria. Um local em que era possível alterar o estado de consciência sem ser um fora da lei. Esse era o karma daqueles ambientes. Faziam bem aos equilibrados e ainda mais mal aos viciados.

Nas ruas de hoje

Eis que hoje surgem novos estabelecimentos com este despropósito: as farmácias. Elas proliferam-se em progressão geométrica. A cada esquina vemos uma. Elas surgem em redes. São lojas limpas, agradáveis. Possuem estacionamento e todo o conforto para você adquirir seu novo vício: o medicamento. Por óbvio, entre a bebida e o remédio, não há comparação. O álcool tem sim algum percentual de benefício em nossa vida, mas todo o restante – a maior parte - faz mal. O remédio também. A diferença entre o alívio e a intoxicação é apenas a dose. Mas uma coisa é fato: os bares estão desaparecendo e as farmácias estão a se estabelecer por todo o lado. E que reflexão podemos abstrair dessa obervação? A lógica diz que, se há mais farmácias, há mais doença.

Mais farmácias, mais doentes

Nenhum estabelecimento se mantém sem clientes. É justamente isso que assusta, o que justifica o título desta coluna. A automedicação é o novo alcoolismo. É um silogismo, eu sei, mas se surgem cada dia, mais e mais farmácias, é sinal de que há cada vez mais pessoas padecendo de doenças. Seja por conta da moderna medicina, que receita mais e mais medicamentos, seja pelo estilo de vida das pessoas, que as levam às esquinas em busca de remédio. O que pouca gente se dá conta, é que o remédio não cura. Ele só mascara os sintomas. Como abrir uma cerveja no final da tarde. Pelo menos, a cerveja, ainda dá prazer. O remédio, nem isso.

A bebida como medicamento

Quando antigamente os angustiados buscavam o barzinho, o buteco, eles não queriam ficar bêbados. Eles queriam aplacar as mágoas da vida, abrir a porta da fuga e tranquilizar-se com um pouco de gaba. O ácido gama-aminobutírico é o neurotransmissor presente na bebida, responsável pela sensação de bem estar. Digite aí, no ceu celular: GABA. A primeira coisa que vai aparecer é um medicamento, hoje facilmente encontrado na farmácia perto da sua casa. Por isso digo que o novo alcoolismo são os medicamentos. Em vez de se tratar, as pessoas tomam remédios. E olha que, em comparação, há muito mais farmácias hoje do que havia de barzinhos antigamente.

A função da doença

Por certo, somos nós os causadores de muitas doenças. A obesidade, o diabetes, a depressão e as dores no corpo. Nada disso vem de fora para dentro. Elas são reflexos de nossos hábitos. E mau hábito é a mesma coisa que vício. O alcoolismo só tem seus sintomas controlados com mais álcool e o vício da vida errada que levamos só se ameniza com remédios. Uma lógica simples e perversa. Pior ainda, é que ninguém repara quando alguém entra numa farmácia. Aliás, ninguém sequer se dá conta que é doente quando vai até esquina mais próxima. É o mesmo mecanismo do ébrio em iniciação. Mas se queres parar de sofrer, apenas avalie seus hábitos. Mude-os. Requer esforço, eu sei, mas é compensatório. Se as farmácias fossem mais distantes umas das outras, ao menos daríamos uma boa e saudável caminhada. Até isso acabou.

 

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