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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Antagonismos interessantes

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Estou de volta a Porto Alegre, minha cidade natal. A sensação que vivo é semelhante àquela cantada na música Cruzada, de Fabiano Bacchieri. Nela, dois amigos se cruzam, em sentidos opostos. No picaço, frente aberta, vai o gaúcho em direção à cidade e, no baio pelo grosso, o outro, de volta para o pago.

Mala cheia e sem cachorro

No diálogo, a estrada que liga a cidade ao pago bem que poderia ser a BR 386, conhecida como a Estrada da Produção. Chama atenção quando o gaúcho montado no baio pergunta: pra onde vais com a mala cheia e sem cachorro? Ao que o do picaço responde, dizendo que juntou uns pilas e vai embora para cidade, enquanto o outro diz que volta ao pago que há muito tempo deixou. E o diálogo segue, lindamente. O retirante, diz que cansou os pulsos de tanto trabalhar para encher os bolsos dos outros. O outro, volta ao pago porque a cidade é coisa braba, tem pouca bóia e sobra muita solidão. Quanta coisa se pode imaginar a partir dessa conversa. Que riqueza em uma simples música.

Minha cruzada

No meu caso, vivo esse antagonismo. Nasci na cidade, fui para o interior e agora retorno. A experiência que vivi morando longe da cidade me permitiu saber exatamente o que se passa nessa música. Sou, ao mesmo tempo, os dois gaúchos dessa música. Quando deixei Porto Alegre, tudo era motivo de alegria. Porém, deixar o interior foi muito difícil. Percebi isso no olhar dos meus amigos. Outro dia, cheguei a comentar que era meu velório vivo, e foi mesmo. Encher a mala e deixar os cachorros foi a parte mais difícil. Muito difícil. Repeti essa frase várias vezes. E hoje me considero do interior. Aprendi que o interiorano é autêntico, verdadeiro e sadio. Aqui, morando em um apartamento, tenho vizinhos porta a porta. Ninguém nos repara e a gente passa até a valorizar as fofocas do interior. Se o menino Jesus tivesse nascido na cidade, nos dias de hoje, ninguém repararia. E como é engraçado: quem mora na cidade e se aglomera, parece ter aversão aos seus semelhantes. Eles te olham com medo de que você os cumprimente. Estes sim, são os verdadeiros bichos do mato.

Desencarne

A sensação que vivencio, nesses primeiros dias, é semelhante a de quem morre, imagino. Volto para um lugar que já deixei e que não me representa mais. Porém, há resgates a fazer, amigos para reencontrar. Pensando bem, parece como o umbral. Uma passagem temporária, mas necessária, antes de partir para Portugal. Um momento para compreender certas coisas da vida. Aqui, terei de resumir minha existência à duas malas e só. Por isso essa sensação de esvaziamento e ao mesmo tempo, de compressão. Só vai o que realmente é essencial. Isso envolve o processo com uma aura de desapego total. Mas confesso que me sinto privilegiado em ter essa passagem pelo umbral portoalegrense, como se visse um filme de minha própria vida. Difícil mesmo teria sido deixar o interior com apenas duas malas, algo como resumir tudo em uma só coluna.

No umbral

E aqui, de volta ao pago-cidade, viverei, nos próximos dias, a reencaração. Vou reencontrar os amigos, os caminhos e as histórias que vivi. Isso tudo há de fazer com que meu coração se distraia e volte a bater com calma. Deixar o interior foi e está sendo difícil demais. Aqui na cidade teu vizinho não te cumprimenta, ao passo que no interior, até teu inimigo te dá bom dia. Sei que tudo isso é um processo, mas esse tal de umbral é necessário e tem o seu lado bom. De certeza, mesmo, só tenho uma: como é maravilhosa a vida no interior. Se tiveres tempo, como um bom gaúcho do interior, ouça essa música: Cruzada. Afinal, a vida é feita de antagonismos interessantes e, ao final, partirei novamente, bem mais leve.

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