A vez dos idiotas
Esses dias, enquanto passava sobre o vertedouro da Barragem do Rio Passo Fundo, ouvia no rádio o Programa Pretinho Básico. O tema em questão falava sobre a burrice, ou idiotice, termo que eu não gosto. Foi quando um dos apresentadores proferiu a célebre frase do Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.
Antes do bulling
Estudei meu primeiro grau no Colégio Pão dos Pobres, em Porto Alegre. Naquela instituição, alunos internos e externos estudavam junto. Não havia diferença e, quando algo saia do equilíbrio, a homeostase era rápida e às vezes um pouco cruel. Não tinha essa história de bulling. O cronista esportivo, Fabiano Baldasso, era nosso colega. Lembro que ele sofria na mão dos colegas, por conta da beleza da sua irmã. Isso não o impediu de progredir na vida.
Lugar de burro
Naquele tempo, quem tinha a inteligência mediana, como era o meu caso, dificilmente se pronunciava. Tínhamos medo de errar, de dizer algo deslocado e ser tachado de burro. Era assim. Os quase burros não tinham vez. Havia um respeito enorme com quem era inteligente. E assim as gerações eram criadas. Não tínhamos voz, concordo, mas o silêncio não causava nenhum mal que não pudesse ser reparado. Então, quem não tinha capacidade de se comunicar, ficava quieto, observava os inteligentes e buscava aprender. Usávamos a proporção ouvidos-boca. Mas hoje não é mais assim.
Paraíso dos bizarros
Eis que no mundo pós-moderno, com os maravilhosos avanços dos meios de comunicação, passamos a retroceder. Com o advento da internet e das redes sociais, os burros finalmente ganharam vez. Se multiplicaram e perderam a vergonha. Agora são protegidos pelo sistema, pelo politicamente correto, por siglas protetoras e o pior, pela legião infindável dos burros que os seguem. E lá no meio, um que outro ser inteligente tenta submergir em meio à insanidade e acaba por ser soterrado pelos porcos, como no romance de George Orwell, A Revolução dos Bixos. As redes sociais tornaram-se então o paraíso dos bizarros. E tudo parece ser verdadeiro, mas não é.
Profecia
E não é que... Nelson Rodrigues tinha razão! Mesmo tendo deixado esse planeta em 1980, foi profético. Mas se você ainda não estiver convencido do que estou dizendo, convido você a assistir a uma sessão da câmara de vereadores da minha cidade. Enquanto acefalados parlamentares bradam, uma plateia de séquitos asseclas purgam incansavelmente o que habita os seus corações: desamor, discórdia, inverdades e falsos silogismos. Dá desgosto de ver. Burros, não conseguem entender que enquanto um cava, o outro se enterra. Como era bom aquele tempo em que quando um burro falava, os outros baixavam as orelhas.