O sentido da vida, por Everton Correa
Eis aí um intrigante tema para análise e discussão. Sem dúvida, um questionamento que sempre faremos ao longo da vida: qual é o sentido da vida? Um tema mutante, vez que a vida pode nos apresentar muitos sentidos dependendo da idade em que nos encontramos. E para colaborar com esta análise, teremos duas colunas, escritas em conjunto com um grande amigo, recém-chegado aos 70: Everton Corrêa. Recentemente, este meu amigo experienciou um diagnóstico de câncer e depois de algumas conversas que tivemos, me brindou com uma experiência que teve ainda nos anos 70 e que decidimos compartilhar com os leitores.
Ainda na juventude
Everton, na década de setenta, andava inquieto na busca de estudar o comportamento humano. Foi quando lhe foi permitido acessar, juntamente com outros professores e colegas da universidade, as reuniões de um grupo de autoajuda. O grupo era composto de pessoas que tinham algo muito singular em comum: a data presumida de suas mortes. E semanalmente este grupo de doentes terminais, já desenganados pela medicina, se reunia neste estudo científico. Segundo Everton, eram eles e Deus.
O trabalho em grupo
Conduzidos por um psicólogo, o grupo era formado por 12 pessoas com idades que variavam entre 22 e 60 anos, todos doentes. A participação na experiência se resumia em compreender e estudar o funcionamento humano. Havia uma enorme expectativa em saber o que as pessoas sentiam e pensavam, ao saber que estariam muito próximos da própria morte. Os encontros eram muito especiais e, em pouco tempo, como previam os médicos, todos os integrantes vieram a falecer. Esta experiência enriqueceu muito o trabalho de meu amigo Everton como consultor em recursos humanos. Quando contava sobre este experimento, sempre se deparava com a pergunta de seus alunos: como aceitaram esta situação da perda total da saúde, sem mais possibilidade de cura?
O que sentem os doentes terminais
Muitos sentimentos permeavam os pensamentos daquele grupo. Raiva e descrença nas divindades eram sempre os primeiros. Não raro, se questionavam sobre as razões de terem sido “escolhidos’’ para o sofrimento diante bilhões de pessoas. Sentiam-se injustiçados e deprimidos pela falta de esperança. Apresentavam medo da morte. Porém, também deram o depoimento de que esta era apenas a fase inicial na luta pela vida. Quando finalmente aceitavam os desígnios, relatavam algo comum a todos os pacientes terminais, o que resumiram como as quatro perspectivas sobre a vida.
As perspectivas dos doentes terminais
Com o auxílio do psicólogo, os pacientes resumiram em quatro as perspectivas comuns dos doentes terminais. A primeira, é que “passa o filme da vida da gente’’, quando se questionavam sobre o que fizeram até ali. Erros, acertos, decisões, com o histórico dos fatos e momentos felizes e infelizes. Uma espécie de documentário com a verdadeira história de vida até chegar a doença, tratamentos, sofrimentos e a quase impossibilidade de cura. A segunda perspectiva girava em torno de “o que ainda podemos fazer”. Este pensamento traduzia a ânsia de fazer alguma coisa antes de morrer. O terceiro ponto de discussão era “o que existe depois”, numa perspectiva de vida após a morte, de acordo com as crenças e suas respectivas religiões. Questões como céu e inferno, reencarnação, comunicação entre planos, entre outras filosofias. A quarta e última, era a mais profunda, filosófica e curiosa pergunta: “quem sou eu”?
Infelizmente, nosso espaço acabou. Então, na coluna de amanhã, continuaremos nossa coluna com este mesmo tema. Vamos contar sobre o último show de rock e sobre os desdobramentos dessa experiência, da perspectiva de vida desses doentes terminais. Até amanhã!