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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Moral e civismo

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Voltava de Porto Alegre, dias atrás quando meu telefone tocou. Do outro lado da linha, um experiente Professor, desses que a gente escreve com letra maiúscula. Foi a segunda vez que um leitor do jornal me ligou. Na outra vez, foi uma professora. Conversamos a respeito da minha coluna sobre educação e corrupção. Ao final da aprazível conversa, o Professor me perguntou sobre quais disciplinas deveriam voltar a ser ensinadas aos alunos. Lembramos das saudosas OSPB e Educação Moral e Cívica.

Civismo

Começava o ano 1988. Era o ano da Constituição Cidadã e da consagração do goleiro Taffarel mas Olimpíadas de Seul. Por conta do fuso horário, os jogos aconteciam bem cedo da manhã. Eu e meu amigo Ronnie ouvíamos as narrações de dentro do ônibus, no rádio de pilha, na ida para o Colégio das Dores. Na semi-final, Taffarel defendeu três penalidades num jogo difícil contra a Alemanha Ocidental. É, ainda haviam duas Alemanhas. Eis que o futebol, naquele tempo, era um meio interessante de expressar o amor à pátria, especialmente aos jovens, como eu na época. Da mesma forma, a constituinte foi um momento marcante sob o ponto de vista cívico. Essas eram nossas vivências cívicas naquele tempo. Mas e a moral?

Moral

A moral eu perdi – e aprendi – logo nos primeiros dias de aula. Sentávamos na primeira fila, mas bem ao fundo. Então, no meio de uma aula de educação moral e cívica, no auge de minha puberdade, adentrou a professora do turno da tarde para apanhar os materiais que ficavam no armário, no fundo da sala. Não tive como não reparar em sua derrière. Nesta idade, os hormônios desequilibram os adolescentes a qualquer hora do dia. Ao sair da sala, num gingado despretensioso da professorinha, suspirei. Mas meu suspiro saiu em forma de assobio, parecido com aqueles que ocorrem nas obras da construção civil. Diria que foi um suspiro lascivo, concordo. No exato momento do meu gesto onomatopéico a turma havia silenciado, dando total destaque ao assobio.

A sentença sumária

O professor então virou-se para a turma e perguntou: quem deu esse assobio? Eu poderia ter me calado. Sentado ao fundo, ninguém saberia. Mas fui galo. Entendia que deveria me responsabilizar pelos meus atos. Seria horrível se o professor julgasse e algum colega levasse a culpa em meu lugar. Então, estufei o peito e ergui a mão dizendo: foi eu! O professor não disse nada. Não me deu nenhuma moral, apenas franziu a testa e apontou a porta da sala: rua.

Moral e Cívica

Não consigo imaginar esta cena nos dias atuais. Reconheço que as questões sexuais evoluiram, mas também se desorganizaram. Seria eu, taxado de machista, de opressor ou de tarado? Me imporiam uma castração química, ou quiçá, moral? Prefiro não imaginar. Prefiro mesmo é lembrar daquele tempo. Do tempo em que a gente aprendia civismo com o futebol. Tempo em que políticos incansáveis, a exemplo de Ulysses Guimarães, davam esperança aos jovens. Me alegra lembrar que a moral era ensinada assim. Depois daquele episódio, nunca mais assobiei para mulher alguma. Quem diria que aprendi a suspirar numa aula de educação moral e cívica. Saudoso 88!

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