Apressar ou apreciar
Na minha coluna de ontem, iniciei meu texto de trás para frente. Confesso que gostei do resultado. Ver as coisas sob esta perspectiva nos dá uma sensação de revisão, de análise. Se levado isso à vida, é como uma retrospectiva, uma forma de autoavaliação. Algo como descer uma escadaria, olhando ao horizonte, até que se chegue novamente ao que antes fora o ponto de partida. Eis que navegando pela internet, me deparei com uma frase interessante, escrita pelo francês Louis L’Amour: “O caminho é o que importa, não o seu fim. Se viajar depressa demais, vai perder aquilo que o fez viajar”.
Apressar
Não há como negar. Vivemos apressados. Assumimos este estilo de vida “na correria”. Não há um dia em que não sintamos aquele ar de insatisfação, de não ter conseguido atingir as metas ou mesmo de ter cumprido tudo aquilo que nos propusemos a fazer. E o resultado disso é a frustração. Quem não se frustra, joga para o dia seguinte tudo aquilo que não conseguiu atingir e a vida se torna esse ciclo vicioso e tarefeiro. Mas porque será que agimos assim? Pior, quando elegemos poucas coisas a fazer, sempre tem alguém que acaba nos delegando mais alguma coisa. Talvez a única resposta para este comportamento seja a nossa incapacidade de dizer não, de dizer chega, de reconhecermos que devemos respeitar nossos limites, se é que os conhecemos.
Apreciar
Este sim é um lindo verbo. Diferente de apressar, que deriva justamente da palavra “pressão”, apreciar deriva da palavra “preço” ou apreço. Valorar, valorizar, ou simplesmente, estimar. Talvez por isso apressar seja tão conflitante com o termo apreciar. Até mesmo a sua pronúncia é linda. É como se ela saísse de nossas bocas separada por sílabas: a-pre-ci-ar. Fica quase impossível pronunciá-la com pressa. Soa indelicado e incoerente. Apreciar é poético, como o andar de uma musa, como o voo de um pássaro, como tudo o que é belo nessa vida e na natureza. Apreciar requer calma, requer observação, como em uma viagem, bem ao encontro do que disse o autor francês. E isso tudo me faz lembrar a frase do meu amigo Cadu: “Uma mulher demora nove meses para gestar uma criança, mas nove mulheres não conseguem isso em um mês”.
O que queremos
Concordo que a vida não é fácil. Também concordo que assumir desafios seja instigante e satisfatório. Mas viver sob pressão realmente não faz bem. De que adiantará viver 100 anos, se não apreciarmos o caminho, se não repararmos no próximo. Esse costume moderno de estar sempre correndo faz mal. Essa ideia de que temos de progredir, desmedidamente, sem saber o quanto será preciso amealhar para envelhecer com segurança é que causa tudo isso. Envelhecemos, focamos lá na frente, esquecendo-se de aproveitar o caminho. Não apreciamos a jornada. Talvez se andássemos com menos pressa, teríamos mais condições de apreciar melhor o caminho e aprender, que da vida, só se levam as memórias e de que não é preciso tanto esforço em vão. Afinal, qual o nosso destino? Morrer? Certamente, a última parada do nosso caminho.