Corrupção – Compensação às avessas
Calma! Não vou falar de política, mas pretendo falar sobre a corrupção, na sua gênese. Há algum tempo, quando se ouve falar em corrupção, logo lembramos e cometemos o erro de associá-la à política, como se fossem irmãs siamesas. Curioso disso tudo, por mais que pareça antagônico, só ela política é capaz de combater a corrupção.
Origem da palavra
A palavra corrupção tem origem do latim corruptus. Remete ao sentido de corromper, adulterar, que se comporta de maneira depravada, como alguém que é desonesto, um covarde. Todavia, pela prática nefasta e repetida, acaba por ser associada aos políticos, vez que figuram muitas vezes agindo em benefício próprio ou de outrem ao adotarem medidas individualistas ou casuísticas, em detrimento do bem coletivo.
Origem do comportamento
Por óbvio, não irei aqui, fazer um tratado sobre comportamento humano. Mas entre o ovo e a galinha, tenho certeza de que a corrupção nasceu antes da política. Ela não é o único lugar em que vivenciamos comportamentos corruptos, conforme irei demonstrar. São, portanto, institutos distintos. A corrupção tem sua gênese no comportamento humano, na cultura de um povo. A política, por sua vez, é uma ciência, complexa e permeável a esses comportamentos e está inserida numa sociedade e em seus valores, bons e maus.
A Lei de Gerson
Em 1976, foi veiculada uma polêmica peça publicitária de uma marca de cigarro, chamada Vila Rica. Na peça, o jogador Gerson, craque da seleção brasileira na copa de 70, aparecia como “garoto propaganda”. A mensagem dizia assim: “Por que pagar mais caro se o Vila (a marca) me dá tudo aquilo de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!". Em termos comerciais, não lembro (eu tinha só dois anos) se a propaganda rendeu bons frutos financeiramente. Mas o que sei, é que a propaganda acabou por cunhar o termo “Lei de Gerson”, que em outras palavras, se assemelha ao famigerado “jeitinho brasileiro”. Por óbvio, não é uma lei, no sentido legislativo, apenas no sentido figurado.
Cultura brasileira
E essa história de “levar vantagem” em tudo, infelizmente, faz parte da cultura do nosso povo. O brasileiro, por natureza, é boa gente, assim como no coletivo, é um povo sofrido. Ao que parece, o “levar vantagem” parece ser uma forma de tolerância à pequenas atitudes corruptas do brasileiro. Funciona como uma fonte de compensação, uma espécie de válvula de alívio para as mazelas sociais e à falta de seriedade de nossos políticos - corruptos. É uma tipo de perdão condicionado, permitindo que a trapaça ou ganho fácil seja relevado diante das dificuldades vividas por nosso povo. Até no direito vemos exemplos desse tipo, como no chamado “Direito Alternativo”, de Amilton Bueno de Carvalho. O sujeito comete um pequeno crime e, em vez de ser preso, paga umas cestas básicas e permanece livre, ou presta “serviço comunitário”. O problema não está na forma como a pena é aplicada, mas sim quando os infratores descobrem que o crime compensa e a pena não regenera.
Outras origens
Conforme disse, a corrupção tem origem no comportamento social e cultural dos seus indivíduos, refletindo em sua coletividade. Não é, portanto, exclusividade dos maus políticos. Se uma sociedade tolera quem fura a fila, tolera o “jeitinho brasileiro”, a Lei de Gerson e não pune quem pratica estes pequenos delitos, é porque democraticamente se faz representar por políticos que compactuam com essas práticas. O problema não está, portanto, na política, nos políticos, mas nessa nefasta prática de tolerância social, nessa espécie de “compensação às avessas”. Na coluna de amanhã, vou contar como isso acontece dentro das escolas. Talvez você passe a entender porque existem pessoas que não se envergonham de escolher certos candidatos, que roubaram, foram condenados, presos e estão aí, nos braços do povo esperando outra oportunidade.