Eu nasci ontem, mas e se eu morresse amanhã?
Ontem, nove de maio, completei 48 anos. Estou velho, pressinto. Durante muitos anos, via minha finitude distante, como algo desinteressante a fazer parte do meu cotidiano. Aposentadoria, nem pensar. Havia outros interesses existenciais que considerava mais importantes. Mas agora não. Sei que não cuidei devidamente do meu santuário até aqui e me parece lógico que esteja mais perto do amanhã do que do ontem.
O Poema
Se eu morresse amanhã é um lindo poema, escrito pelo patrono da cadeira de número 2 da Academia Brasileira de Letras, Álvares de Azevedo. Ele viveu apenas vinte anos, mas sua passagem foi marcante. Mas vamos à poesia, que diz assim: “Se eu morresse amanhã, viria ao menos, fechar meus olhos, minha triste irmã. Minha mãe, de saudades morreria, se eu morresse amanhã. Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que amanhã! Eu perdera chorando essas coroas, se eu morresse amanhã! Que sol! Que céu azul! Que doce n'alva, acorda a natureza mais louçã! Não me batera tanto amor no peito, se eu morresse amanhã!”
Viver e se descobrir
Reconheço. Sempre fui meio melancólico, assim como ao poeta. Diferente dele, até aqui, fui um tremendo afortunado. Não morri jovem e também não quero imaginar a cena do meu velório. Seria triste demais para minha esposa e para os meus filhos. Pronto. Já imaginei. Também, se morresse amanhã, não teria esse sentimento de perda, afinal, minha vida já andou bastante. Mas não. Mesmo tendo vivido o suficiente para aprender o que realmente importa nessa caminhada, descobri tardiamente o quanto é importante seguir um propósito. Talvez por isso, eu tenha tanta vontade de chegar aos 90. Eis uma boa meta, mas será assustador se eu ler esta coluna aos nove de maio de 2054.
Desapegar e viver mais
Mas, seu eu morresse amanhã, eu aceitaria. Sim, ficaria triste, mas aceitaria. Aprendi que essa vida, aqui na Terra, é só um estágio da nossa existência e não somos nós quem decidimos a hora. Há muito mais porvir. Hoje, aos 48, vivo um exercício de desapego. Uma forma interessante de me tornar mais leve, como um bebê, que vem ao mundo pelado e sem nada, mas cheio de vida. Então, prefiro apostar nisso: desapegar e viver mais. Recentemente, me desapeguei de algo grandioso, que construí com muito sacrifício, mas que não fará mais parte da minha jornada. Vendi minha cervejaria, que foi por muitos anos, motivo de inspiração, estudo e trabalho. Por mais que eu ame cerveja, preciso também me desapegar deste hábito, que certamente encurtou meu prazo de validade, do tanto que eu já bebi. Não foi fácil, reconheço, mas há um “que” de liberdade que não consigo descrever.
Incertezas
Mas a vida é assim, cheia de incertezas. E, como não sei quando será a derradeira hora do meu amanhã, registro aqui, o meu desejo de evoluir, de me tornar mais limpo, mais leve, mais elevado. Terei de abrir mão de determinados hábitos, eu sei. Será difícil abandonar as minhas Stout, Kölsch e Apas. Mas na vida, toda evolução requer sacrifício e, se for para ter uma vida elevada, estou disposto. Não quero, depois da minha hora, me tornar um espírito denso, errante e dependente das coisas da Terra. Irei sim, ao encontro do Pai, mas sem nenhuma pressa. Farei o meu preparo todo por aqui, enquanto vivo, em meio aos meus. Tomara (não mais bebera) que dê tudo certo. Veremos. Até amanhã!