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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

O Jipe

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Das incontáveis invenções automobilísticas do século passado, poucas marcaram tanto o progresso e a vida do que a Kombi e o Jeep. Eles fizeram parte da construção e da reconstrução mundial. São invenções do tempo da guerra, de quando as coisas eram feitas para durar a vida toda. Carregaram doentes, enfermos, operários e crianças. Combateram em guerras, resgataram soldados e estiveram por todos os terrenos, incluindo Erechim. E se tem uma coisa que Erechim é apaixonada, é por seus Jipes.

General Purpose

Esse interessante veículo, teve seu nome batizado a partir das iniciais de seu projeto: General Purpose (Gee-pee). GP, que no fonema inglês, virou Jeep, aqui apelidado de Jipe. E foi justamente um desses que marcou uma importante passagem minha por Erechim. Era ano 2000 e  já fazia uns três anos que eu havia descoberto que sofria de ceratocone, uma doença degenerativa da córnea. Até o século passado, só o transplante servia de cura e tinha lá seus riscos. Alguém tinha que morrer para outro voltar a enxergar. A cegueira inevitável. Mas foi em Erechim que descobri minha cura. Eu ainda vivia em Porto Alegre, onde a novidade domorou a chegar. Foi quando fiz o implante do “Anel de Ferrara” com o Dr. Fábio Vaccaro, um dos poucos a adotar essa prática no mundo naquele começo de milênio.

O procedimento

Assim que saí da cirurgia, não acreditei no resultado. Tudo ficou claro e nítido. Passei a ver como uma criança. Foi uma emoção marcante. Recuperado, no momento da alta, o Dr. Fábio me passou as recomendações pós operatórias. Não poderia molhar o olho e não poderia andar ao vento. Pegar poeira, nem pensar. Enfim tinha de proteger o habitáculo ocular. Ao sair, o Fábio avistou meu amigo Jeff, que me esperava na antesala e arrematou: “e não vai andar de Jipe com esses loucos!

À tarde, com o tédio batendo, resolvemos transgredir. Fomos dar uma voltinha despretensiosa de Jipe, com todo o cuidado, é claro. O Jeff ligou para um amigo, porque com o Jipe a gente nunca anda sozinho. Para nossa surpresa, quando encostamos atrás do Jipe do amigo, na beira da beérre, salta lá de dentro, ninguém mais, ninguém menos, do que o jovem Fábio Vaccaro. Poucas horas depois da cirurgia. Que vergonha senti. Ele ficou chocado com a cena. E gritou sorrindo: (*!*!*!) perdeu a garantia! E nunca fui tão comportado em cima de um Jipe como naquela tarde.

Atoleiros da vida

Essa história me fez lembrar que, em nossas vidas,  muitas vezes sentimos falta de um Jipe. Sentimos a necessidade de uma força que nos mova, de uma situação para outra. Algo que literalmente nos desatole de situações complicadas. Porém, o que nem sempre observamos, é que a vida é um caminho e, não raro escolhemos as estradas erradas, que nos levam a esses “atoleiros”. Ideal mesmo, seria refletir muito, observar, vigiar, para que nossos movimentos não sigam em direções lamacentas. Mas como fazer isso se vivemos “na correria”?

Podemos também comparar os atoleiros da vida, àquelas situações onde nos encontramos com pessoas difíceis, intransigentes, que na verdade nos atrapalham e impedem o nosso avanço – e o deles. Infelizmente, há muitas pessoas assim em nossa jornada. Atuam como a lama, nos prendem, nos sujam e limitam nossa ascenção. São grudentos e sugam as nossas energias. Mas o que fazer numa situação dessas? Cadê o nosso jipe numa hora dessas?

Saindo da lama

Não quero, novamente, falar em propósito. Já chega, está até no nome, General Purpose. Mas podemos lembrar, que quando estamos bem, podemos ajudar quem não está. Quando estamos na zona de conforto, há certamente alguém a necessitar de amparo, de reboque. Não é preciso “se atolar” para resgatar alguém. É por essas e outras que eu admiro muito os amantes dos Jipes. Eles tês esse espírito de cooperação. Não raro, seus passeios vão além das trilhas. Vão às vilas, aos necessitados, aos asilos. Afinal, quem anda de Jipe não opta pelo conforto, opta por um estilo de vida, em que viver sozinho, envolto apenas às conquistas materiais, não tem a menor graça.

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