Terceira via: a outra face
Eu resisto, resisto, resisto, mas não consigo. Sou fraco, confesso. Preciso escrever sobre política. Até porque, assim como a grande maioria dos eleitores, entendo pouco, e o pouco que eu entendo, me atrapalha. Como já disse em outra coluna: tudo que é chato te prejudica! Mesmo assim, me proponho a compartilhar, pelo menos, os desdobramentos ocultos, mas existentes.
Ex governador
Eduardo Leite até pode ser atacado por seus concorrentes, mas uma coisa é fato: nos últimos anos, nenhum governador apareceu mais do que ele. Não vou aqui avaliar seu governo, até porque não possuo as ferramentas para tal. Mas posso dizer, com tranquilidade, que diante das pessoas que o rodearam, ele fez um bom governo. Digo isso porque, quando se é governo, muita gente se junta à célula principal. São alianças e compromissos, essas coisas da política. E se não terminou mal, é sinal de que foi bem.
Pretensões
Eduardo Leite pode ter escondido certas coisas de seus eleitores. Mesmo sendo uma figura pública, teria o direito de preservar sua intimidade. Porém, há algo que ele nunca escondeu: o seu desejo de ir além. Quem ouviu suas entrevistas quando era prefeito de Pelotas, há de lembrar de seus planos mais ousados, incluindo Brasília. O que ninguém imaginaria – talvez nem ele - é que depois das experiências de seu partido com José Serra e Geraldo Alckmin, além das presepadas de Aécio Neves, um outro concorrente surgiria para atrapalhar seus planos: a Covid e o Coronavac, leia-se, João Dória. Será? Vejamos...
Leite tentou ser escolhido por seu partido da maneira ortodoxa, mas acabou perdendo nas prévias. O processo, cheio de falhas, foi um fiasco para o partido. Inconformado com o resultado, passou a flertar com outras siglas. Seu desejo falava mais alto, demonstrando claramente que tinha pretensões maiores. Foi corajoso, mas imaturo diante de tantas “cobras criadas”. Conversou com expoentes da terceira via e andou pelo Brasil. Namorou Sérgio Moro e, até mesmo, ensaiou ser vice de Simone Tebet, do MDB. Granjeou notoriedade. Com isso, conquistou o apoio de alguns colegas do partido e foi tentado a ficar. Ficou. A ideia era quebrar as prévias do PSDB. Por um tempo funcionou, mas faltava acertar os detalhes com o vencedor, João Dória. Ao que parece, Eduardo Leite foi presunçoso, mas tentou. Engraçado nisso tudo é que, com Geraldo Alckmin, não houve nada desse movimento do “fica”. E é, justamente aí, que residem minhas conclusões.
Planos para Eduardo Leite
Não acredito que João Dória esteja blefando. Ele deve realmente ser o candidato do PSDB. Ainda assim, diante desses desarranjos ensaiados, Eduardo Leite poderá ser candidato ao Governo do Rio Grande do Sul, acreditem! Como não há impedimentos legais, salvo algum problema oculto até então, considerando sua coragem, eu diria que ele deveria ser candidato ao Governo do Estado. Se ele se acha tão preparado para ser presidente da república, mas foi preterido na escolha do partido, porque não governar mais quatro anos o Rio Grande? Porque não mostrar que é, efetivamente, um bom candidato, um bom gestor? Será que tem medo de ser reprovado nas urnas? Se não lhe faltou coragem para enfrentar os caciques da política, que faça como Dom Pedro I. Diga que fique! Seria inédito e bem interessante.
Planos do Partido
A política tem esse fascínio. A gente que está de fora, nunca saberá o que fizeram Lula e os caciques do MDB naquele jantar de velhas raposas, mas podemos imaginar. Minha intuição diz que até mesmo a resistência de Dória em defender seus 3% de intenção de voto tem o dedo de Lula. Porque digo isso? Porque o PSDB se tornou um partido que só pensa em poder. Um partido sem integridade, sem ideologia, mas com inteligência maquiavélica. Com Dória na disputa, o PSDB apura seu potencial de votos no primeiro turno (contando com o apoio de Eduardo Leite). Isso se torna moeda de troca em um segundo turno, quando o PSDB deve mostrar sua verdadeira identidade. A tendência é óbvia: o PSDB vai ao encontro de seu emissário, Geraldo Alckmin, vice de Lula por outro partido alaranjado. Tudo ensaiado meus caros leitores! E o Eduardo? Com ele o PSDB testou seu alcance com a juventude, que corresponde a 45% dos eleitores neste pleito. Infelizmente, nesse teatro democrático, até a terceira via é controlada por Lula. Ao que me parece, quem manda no PSDB é mesmo o PT ou seria o contrário? Com essas alternativas, fica claro que o PSDB não quer ser protagonista. Almeja só o poder, os cargos, a engenharia, o mecanismo. Pega carona com Lula e depois volta a governar. São planos de longo prazo, a exemplo do que anda testando em menor escala por aí.