Outros muros
Na minha coluna de ontem, escrevi sobre os muros, em especial, o da minha infância. Hoje, conforme o prometido, vou falar de outros muros, os da História, partindo do Muro da Mauá, em Porto Alegre até chegar ao Muro de Berlim e ao que dele restou.
O Muro da Mauá
A História nos presenteia com muros famosos. A Muralha da China, por exemplo, foi construída antes de Cristo e serviu de inspiração ao escritor tcheco, Franz Kafka, na obra Fragmentos Chineses. Mas não vou falar dela, vou falar do Muro da Mauá. Depois da inesquecível enchente de 1941, Porto Alegre cresceu pujante, a partir do seu centro, tendo como ponto de partida, o cais do porto. Mas havia o medo, o grande aliado dos muros. Trinta anos depois, sem qualquer recorrência diluviosa, ergueu-se o Muro da Mauá. Serviria como dique para conter a fúria das águas do sossegado e tranquilo Rio “Guahyba”, como em 1974 o descreveram os autores Nelson e Josina Correa na obra “Guaíba, o rio e a gente”.
Depois de pronto, nem mesmo a enchente de 1983 foi perturbadora e o legado do Muro da Mauá, lamentavelmente, foi mesmo separar a cidade de sua gênese: o rio. Porto Alegre viveu anos de costas para sua natureza, para suas origens, mas esse é assunto para outra coluna. Os muros têm esse retrogosto amargo. Deixam essas marcas no tempo.
O Muro de Berlim
O Muro de Berlim é velho conhecido da História, mas poucos sabem as razões de sua construção - e queda. Para contar essa história, recomendo que você assista dois filmes: A vida dos outros (2006) e Adeus Lenin (2003). Vale muito a pena. São bons exemplos de como o medo é capaz de construir barreiras. Os filmes, que são ótimos, contam histórias reais, de personagens que viveram sua construção e queda. É possível ter a real noção de como era a vida antes e depois dele. Mas vamos aos fatos.
Depois que o regime alemão sucumbiu à Segunda Guerra, o território alemão foi dividido praticamente ao meio. À esquerda, ficaram americanos, franceses e ingleses, os chamados “aliados”. À direita, ficaram os russos. Sobrou, ao ocidente, o capitalismo e, ao oriente, o socialismo soviético. Porém, o grande troféu da guerra era a capital Berlim, que ficava geograficamente na parte destinada aos russos. Mas os aliados também a queriam. A solução então, foi dividir a capital entre russos e ocidentais, no chamado “Acordo de Potsdam”. Nasceu assim, Berlim Ocidental, um “território” alemão (sob proteção dos americanos) dentro da RDA – República Democrática Alemã, que em verdade era socialista e nadinha democrática.
Com o tempo, o regime socialista foi moldando a nova Alemanha Oriental – RDA. Para se ter um exemplo. Se você quisesse comprar um despojado Trabant, o carro deles, a fila de espera era de sete anos. Berlim Ocidental tornou-se uma ilha, um oásis, dentro da Alemanha Oriental. As incoerências tornavam-se cada vez mais aparentes e gritantes. Do lado ocidental dessa “ilha”, se via progresso, desenvolvimento e liberdade, ao passo que do lado socialista, se via aquele modelo restritivo e frio, que deu causa às queda do regime bolchevique. Com isso, os moradores do lado socialista fugiam em massa para Berlim ocidental. Assim, temendo a ruína do regime socialista, a solução encontrada foi construir um muro, separando os dois regimes, criando duas Berlim. Os socialistas criariam uma barreira física – o muro - para que seu povo não pudesse “comparar” os dois regimes. Quem ousasse cruzar as barreiras era fuzilado. Os socialistas adoravam esta solução. Veja nos filmes.
A queda
Os anos passaram. As Alemanhas tornaram-se diferentes em costumes. Mas o ser humano é – e sempre será – avesso à falta de liberdade, comum nos regimes socialistas. Até que em nove de novembro de 1989, 28 anos após a construção do muro, após uma declaração infantil do porta-voz da Alemanha Oriental, que em rede de TV disse que os cidadãos eram livres para ir e vir, o povo saiu imediatamente às ruas. Faltaria munição para fuzilar uma população inteira. E o muro ruim. Acabou por ser derrubado. Por trás dessa história, a Glasnost (transparência), um dos fundamentos da Perestroika (reestruturação russa), que era a nova política soviética, liderada por Mikhail Gorbachev.
O aprendizado
Os regimes totalitários, como o de Putin, têm por fundamento a restrição às liberdades. O regime socialista é assim. É da sua natureza. Não que o capitalismo seja uma maravilha. Não é. Mas a liberdade é um valor pétreo, algo que deve ser inegociável. Sem liberdade vivemos sob o comando de tiranos, de loucos ou de sociopatas controladores. O tempo passa, as gerações passam, até mesmo a raiva passa, mas alguns muros ficam. Muitos deles, perdem o sentido e a razão de ser. Ocupam um espaço e tornam-se estruturas obsoletas e sem serventia. Por isso, antes de você “criar muros”, impor limites intransponíveis em você mesmo, reflita. Melhor do que criar muros é abrir caminhos. É muito mais fácil. Construir muros é coisa de fanático, é coisa de maluco. Bom mesmo é ser livre e respeitar quem pensa diferente de você!