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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Os muros

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Os muros fazem parte da História da humanidade. Fazem parte da nossa vida, da minha, da sua. Eles não dividem, mas separam. Quem viveu a infância antes dos anos 90, deve ter boas histórias para contar sobre os muros. Eles são barreiras físicas, frias, criadas com a finalidade de impor limites na vida dos homens. É o caso da Muralha da China, do Muro de Berlim, do Muro da Mauá e o muro da casa do Guarujá.

O muro da casa do Guarujá

Aos três anos, minha família decidiu mudar, de um apartamento para uma casa. A casa do Guarujá. Na verdade, ficava no Bairro da Serraria, zona sul de Porto Alegre. Quando mudamos, em 1977, só existia ela, rodeada de terra de saibro e de outras casas, todas iguais, de madeira, num colorido que lembra as antigas habitações populares. Nada de cercas nem demarcações, mas cada unidade tinha o seu terreno. Fomos os primeiros a mudar e, em seguida, novas famílias foram habitando aquela “Gestalt”. O bairro, de características rurais, foi crescendo e arrastando consigo as mazelas do progresso. Meu pai era caprichoso com sua propriedade. Nos raros momentos de folga, se dedicava à pequena horta, ao plantio de árvores frutíferas, que aos poucos transformou a natureza original do terreno, como um kibutz.

Até que um belo dia, ele resolver proteger nossa propriedade, erguendo um muro ao redor. E não era um muro qualquer. Para uma criança, que tem a perspectiva de espaço e tamanho totalmente diferente dos adultos, era uma obra imponente naquele longilíneo terreno. Nas casas contíguas, moravam duas famílias, formadas por descendentes de alemães da RDA (República Democrática Alemã), a extinta Alemanha Oriental. Os “Thiel” tinham dois filhos, o mais velho, regulava de idade com meu irmão e a mais nova, de nome Elisa, era da minha idade.

Geopolítica pedagógica

A construção daquele muro foi a minha primeira experiência geopolítica. A obra acabou mexendo com os brios da vizinhança. Não posso negar, foi agressivo. Não tinha arame farpado, mas tinha aquele acabamento chapiscado de cimento, de cor pardacenta, que destoava das cores alegres e originais das casas do vilarejo. A construção não me fez “perder” os amigos. Porém, causou certa animosidade, diante dos limites, que à época, influenciaram na liberdade de ir e vir à casa deles e vice-versa. Nem sequer um portãozinho foi instalado, a não ser uma passagem, que ficava lá no fundo do terreno.

Não demorou muito e Elisa declarou “estado guerra”. Do outro lado do muro, em sua parte mais baixa, por onde conversávamos, ela alegava que ele tinha sido construído em cima do seu terreno. Bah! Como saber? Eu não tinha argumentos, senão a confiança na forte honestidade de meu pai. Ele jamais faria isso, eu sabia. Era uma disputa de argumentos, sem provas a dispor. Findada a construção, não víamos mais o pátio dos vizinhos como antes. Ganhamos privacidade, até mesmo para conversar silenciosamente sobre a construção do muro e seus desdobramentos. Mas, desde quando criança precisa disso? Criança gosta é de espaço, de liberdade e de amigos. Logo, o muro não tinha lógica nem serventia, senão me ensinar geopolítica, mas eu nem sabia que isso existia.

A queda

A polêmica foi tanta que o muro simplesmente desabou, deitou por inteiro. Tombou como um dominó sobre o pátio do vizinho. Dormiu em pé, acordou deitado. Pronto! Se havia alguma dúvida sobre quem seria o dono do muro, a queda apontou. Me senti envergonhado. Teriam os alemães orientais derrubado o muro? Um mistério jamais revelado. Aquele episódio, por fim, mostrou que os vizinhos alemães eram de paz e hoje compreendo o impacto gerado pelo muro. E a pureza da minha infância conheceu o ar da disputa. Por um momento, perdi meu muro. Algo que eu nem queria, mas as circunstâncias me fizeram lutar por ele. Por questão de honra foi reconstruído às custas de meu pai pelo pedreiro Adiomar, um riograndino calvo que quando vinha trabalhar, eu e meu irmão aparecíamos com piolhos. Piolhos pegos de um calvo...só na Casa do Guarujá.

Outros muros    

Essa história toda, sobre o muro da minha infância, é um pequeno fragmento. Os impactos disso, ficam no imaginário de cada pessoa. Ressalvadas as proporções, guarda semelhanças com a construção de “outros muros”. E na coluna de amanhã vou contar sobre eles. Vamos passear, de Porto Alegre à Berlim. Até amanhã.

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