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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Aromas da vida

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Recentemente, escrevi no posfácio do meu livro como a vida nos dá sinais. Ontem, assistindo um programa de televisão, em um canal que eu nunca tinha visto, assim, aleatoriamente, a apresentadora mostrou a badalada livraria de Londres, que inspirou a comédia romântica “Um lugar chamado Notting Hill”, de 1999. Pronto, minhas memórias me levaram de volta ao século passado.

Os aromas da memória

Estudei no secular Colégio Pão dos Pobres (1895), em Porto Alegre, onde concluí o primeiro grau, de 80 a 87. Logo na entrada, no número 801 da Rua da República, havia uma livraria à direita e uma capela à esquerda. Sugestivo, não? Fecho meus olhos e consigo lembrar de muitos detalhes daquele tempo, mas ao cerrar minhas vistas acesso outro fator sensorial: o aroma. Ah, os livros tinham um aroma especial e, quando reunidos em uma livraria, eram como perfume, que só eram ignorados quando os padres traziam o pão quentinho - e o seu respectivo aroma - quase na hora da saída. Nos dias de outono, aquele cheiro de pão e a paisagem amarelada dos plátanos, era coisa de cinema. Tipo aquele cheiro de palito de fósforo queimado. Um cheiro ruim, eu reconheço, mas que remete ao tempo em que a vó da gente riscava o fósforo, aquecia a água no fogão Wallig esmaltado e passava um saboroso café, servido amorosamente com um bom pão com manteiga. Manteiga da boa, minha vó dizia. Consigo lembrar até mesmo do barulho da casca do pão de quarto se rompendo.

A Miscelânea

Mas a memória de que quero falar é outra. Sei que tem um certo saudosismo nisso. Mas quem viveu o tempo dos livros, dos jornais e das revistas, não esquece o valor e a importância de uma livraria. Eram como o nosso “browser”. Mas naquele tempo eu era um jovem distraído. Não fazia bom uso da infinidade de obras que a Livraria Miscelânea dispunha. Me contentava em namorar a filha do dono, que acabou se tornando um grande amigo. Tomávamos chopes logísticos, recém saídos da fábrica da Brahma, no antigo Bar do Grilo, na Cristóvão Colombo. O namoro acabou, mas minha admiração pelo livreiro jamais. Seu trabalho era inspirador. Numa ocasião, eu quase comprei uma tabacaria, mas ele me desestimulou. Me disse um não silencioso e elegante. Talvez ele soubesse dos meus dons melhor do que eu. Localizada na esquina da Ladeira com a Andrade Neves, a livraria era o “point” dos intelectuais descolados e maduros de Porto Alegre. Tudo o que havia no mundo em termos de publicação, a Miscelânea tinha. Se não tivesse, conseguia em poucos dias. Desde a Der Spiegel, da Alemanha, até os jornais do grande centro. No tempo em que não havia internet, aquele lugar era como se fosse o Google.

Cultura pulsante

A cultura pulsava forte naquele local. Atrás do balcão, cigarros, charutos, raspadinhas e outras quinquilharias que ajudavam a manter o local funcionando. Mesmo com vanguarda e exclusividade, era impossível viver só dos livros. Vinha gente de todo o lugar. Infelizmente, a trajetória do inesquecível Valmor Dalcin foi curta demais para os que ficaram. Nos deixou cedo, dois anos antes da estreia do filme da Julia Roberts (Um lugar chamado Notting Hill). Mas as memórias, estas são eternas. E nesse emaranhado de idas e vindas que a vida nos proporciona, posso afirmar com segurança: a tecnologia é fantástica, but... Mas graças a ela, ficou mais fácil, até mesmo, escrever livros, com o advento do computador. Acabou com a guerra entre as Facit, Remington e Olivetti. Podemos ler livros em tablets e outros dispositivos, como o Kindle. Mas nada disso é suficiente, porque nada disso tem cheiro. São elementos desprovidos de ocitocina. Nada supera um papiro e uma livraria. Elas são como um santuário, ainda que pagão. Coisas de um tempo que não volta mais, mas que jamais será esquecido, basta fechar os olhos, lembrar os cheiros da nossa vida e o nosso coração toca mais alto.

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