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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Quando o câncer encontra você

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Duvido haver neste mundo, alguém que não conheça ou que não tenha perdido um amigo ou ente querido para esta moléstia. Sem comparação, o Câncer é a mais temível das doenças comuns. Afeta milhares de pessoas em todo o planeta. Podem até existir outras doenças, muito piores que o câncer – e têm - mas nenhuma outra carrega um estigma tão forte quanto ele. É velho conhecido da medicina e muitas vezes não tem cura. Mas você tem.

Recebendo a notícia

O diagnóstico de um câncer é muito estigmatizado em nossa sociedade. Há tipos comuns e tipos raros. Mas indiferente da classificação, boa parte do sucesso do tratamento começa justamente no diagnóstico. Até o choque da notícia, é como se acreditássemos que somos melhores que os outros e, talvez por isso, não merecêssemos este “privilégio ao contrário”. Também, ao olhar dos outros, o câncer é visto como uma espécie de aviso prévio, como se fosse uma sentença de morte. Só isso já faz mal. Há muito exagero, despreparo e medo. Prova de que as pessoas parecem não saber que a vida do corpo é finita e que basta nascer para começar a morrer. Por mais pueril e vago, é um conceito verdadeiro, assim como os outros mistérios da vida. Ademais, essa doença atinge crianças, adultos e idosos. Logo, não é um castigo.

O que dizer a um paciente

Estes dias, aconteceu comigo. Foi quando visitei um amigo, de 73 anos. A gente tinha muito assunto para pôr em dia, mas ele foi direto ao ponto: eu quero saber o que se passou contigo quando você teve o diagnóstico de câncer. Curioso: é a segunda vez que isso acontece comigo. Estava eu, diante de um homem inteligente e vivido. Fosse antigamente, seria considerado como um sábio ancião. E eu, tendo de falar sobre a minha experiência, ou melhor, as minhas, já que foram mais de uma. Comecei dizendo que o câncer era como uma sombra. Dependendo de como olhava a minha imagem, ele aparecia. Em alguns momentos eu esquecia a sua presença. Em outros, ele soprava em meu ouvido. Era como se passasse um filme de uma vida da qual eu ainda não tinha vivido. A vida de paciente oncológico. No fundo, uma espécie de projeção mental, fantasiosa, mas com um certo fundo de verdade. E é justamente aí onde mora o perigo: nas projeções mentais. Então, quando se está doente, ou mesmo quando se inicia um tratamento, o ideal é viver um dia de cada vez. Isso sim ajuda muito. Focar no presente.

O que se passou comigo

Nesta experiência, nos momentos tenebrosos do meu íntimo, ficava imaginando meus filhos e minha esposa. A imagem que projetava era de desamparo. Era uma projeção agoniante e, portanto, um prato cheio para depressão. Essa sensação me acompanhou, não o tempo todo, mas por todo o tempo. E os pensamentos negativos iam e vinham. Durou até o dia em que o médico me disse que eu estava curado, provisoriamente. Sim, o câncer pode voltar, como uma tempestade que um dia assolou sua morada. Até lá, temos tempo para estar preparado e, sabedores do risco, acompanhamos e nos cuidamos mais. Pontos para medicina. Mas considero que pouco aprendi naquela minha segunda experiência. Acredito não ter valorizado a minha cura da maneira certa.

O outro lado

Mas voltando ao meu amigo, eu precisava falar do lado bom de ter câncer. O pior de tudo, porque não dizer, o melhor de tudo, é que sim, há um lado bom por trás de um diagnóstico desses. Não importa o seu percentual de chance. Esqueça os números numa hora dessas. Eles não ajudam, são estáticos ou, simplesmente, estatística. Fantasia. Importa sim, seja qual for a sua chance, que você se agarre nela. Sua chance é a sua vida. Este é o foco. Então segui conversando com meu amigo e senti que minha história passou a fazer um pouco de sentido aos olhos dele. Disse ao meu amigo que a doença tem um propósito. No meu caso, não foi o câncer que me fez acordar, em que pese o privilégio da cura. Mas meu amigo precisava saber mais. Vendo em seus olhos, com a atenção de um menino, eu precisava explorar mais o lado bom. Pena que acabou o espaço da coluna. Mas amanhã eu continuo. Um dia de cada vez!

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