Quando o câncer encontra você
Duvido haver neste mundo, alguém que não conheça ou que não tenha perdido um amigo ou ente querido para esta moléstia. Sem comparação, o Câncer é a mais temível das doenças comuns. Afeta milhares de pessoas em todo o planeta. Podem até existir outras doenças, muito piores que o câncer – e têm - mas nenhuma outra carrega um estigma tão forte quanto ele. É velho conhecido da medicina e muitas vezes não tem cura. Mas você tem.
Recebendo a notícia
O diagnóstico de um câncer é muito estigmatizado em nossa sociedade. Há tipos comuns e tipos raros. Mas indiferente da classificação, boa parte do sucesso do tratamento começa justamente no diagnóstico. Até o choque da notícia, é como se acreditássemos que somos melhores que os outros e, talvez por isso, não merecêssemos este “privilégio ao contrário”. Também, ao olhar dos outros, o câncer é visto como uma espécie de aviso prévio, como se fosse uma sentença de morte. Só isso já faz mal. Há muito exagero, despreparo e medo. Prova de que as pessoas parecem não saber que a vida do corpo é finita e que basta nascer para começar a morrer. Por mais pueril e vago, é um conceito verdadeiro, assim como os outros mistérios da vida. Ademais, essa doença atinge crianças, adultos e idosos. Logo, não é um castigo.
O que dizer a um paciente
Estes dias, aconteceu comigo. Foi quando visitei um amigo, de 73 anos. A gente tinha muito assunto para pôr em dia, mas ele foi direto ao ponto: eu quero saber o que se passou contigo quando você teve o diagnóstico de câncer. Curioso: é a segunda vez que isso acontece comigo. Estava eu, diante de um homem inteligente e vivido. Fosse antigamente, seria considerado como um sábio ancião. E eu, tendo de falar sobre a minha experiência, ou melhor, as minhas, já que foram mais de uma. Comecei dizendo que o câncer era como uma sombra. Dependendo de como olhava a minha imagem, ele aparecia. Em alguns momentos eu esquecia a sua presença. Em outros, ele soprava em meu ouvido. Era como se passasse um filme de uma vida da qual eu ainda não tinha vivido. A vida de paciente oncológico. No fundo, uma espécie de projeção mental, fantasiosa, mas com um certo fundo de verdade. E é justamente aí onde mora o perigo: nas projeções mentais. Então, quando se está doente, ou mesmo quando se inicia um tratamento, o ideal é viver um dia de cada vez. Isso sim ajuda muito. Focar no presente.
O que se passou comigo
Nesta experiência, nos momentos tenebrosos do meu íntimo, ficava imaginando meus filhos e minha esposa. A imagem que projetava era de desamparo. Era uma projeção agoniante e, portanto, um prato cheio para depressão. Essa sensação me acompanhou, não o tempo todo, mas por todo o tempo. E os pensamentos negativos iam e vinham. Durou até o dia em que o médico me disse que eu estava curado, provisoriamente. Sim, o câncer pode voltar, como uma tempestade que um dia assolou sua morada. Até lá, temos tempo para estar preparado e, sabedores do risco, acompanhamos e nos cuidamos mais. Pontos para medicina. Mas considero que pouco aprendi naquela minha segunda experiência. Acredito não ter valorizado a minha cura da maneira certa.
O outro lado
Mas voltando ao meu amigo, eu precisava falar do lado bom de ter câncer. O pior de tudo, porque não dizer, o melhor de tudo, é que sim, há um lado bom por trás de um diagnóstico desses. Não importa o seu percentual de chance. Esqueça os números numa hora dessas. Eles não ajudam, são estáticos ou, simplesmente, estatística. Fantasia. Importa sim, seja qual for a sua chance, que você se agarre nela. Sua chance é a sua vida. Este é o foco. Então segui conversando com meu amigo e senti que minha história passou a fazer um pouco de sentido aos olhos dele. Disse ao meu amigo que a doença tem um propósito. No meu caso, não foi o câncer que me fez acordar, em que pese o privilégio da cura. Mas meu amigo precisava saber mais. Vendo em seus olhos, com a atenção de um menino, eu precisava explorar mais o lado bom. Pena que acabou o espaço da coluna. Mas amanhã eu continuo. Um dia de cada vez!