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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

O lado bom do câncer

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Antes que você saia por aí, me maldizendo por este título, acalme-se. Esta coluna é a continuação da que foi publicada ontem. Está disponível nas plataformas do Jornal Bom Dia. Leia e então prossiga. Conforme contei ontem, precisava acalmar o coração de um amigo, diagnosticado com câncer. Ele sabia que a minha vida havia se transformado. Mesmo assim, ele estava faminto por detalhes.

Meu terceiro diagnóstico

Em agosto de 2017, me submeti à tireoidectomia e, em troca, passei à condição de dependente químico do hormônio da tireoide. Algo como escovar os dentes, desde que nunca falte o remédio. No ano seguinte, me sentia revigorado, com a vida pulsando ativamente. Tinha a sensação de que, de fato, algo sugava minhas energias. Pouco tempo depois, descobri que seria pai pela terceira vez e, no começo de 2019, Vicente nasceu com uma doença rara: Síndrome de Prader-Willi. Contei sobre ela na coluna “A Síndrome do Amor”. Foi o maior sufoco de nossas vidas. Muito mais apavorante do que um tumor. O paciente, a mais indefesa das criaturas. No começo, vivi novamente o tal “diagnóstico” e considero que esta foi a minha “terceira vez”. Em verdade, deve ter sido a quinta ou sexta, mas não vem ao caso. A vida sempre gritou comigo, mas eu era surdo. O fato é que, a partir dali, aprendi que viver é bem mais do que estar vivo. Aprendi que quando a vida grita com a gente, é porque estamos distraídos, adormecidos e que algo de grandioso precisa ser feito, embora não saibamos bem o que.

A males que vem pra bem

Este é um ditado popular e acredito que sirva bem ao caso. Ter um diagnóstico de câncer atrapalha demais a vida, eu sei. Porém, quando a gente olha para ela como algo mais amplo, além da nossa simples existência, a gente se sente provocado a buscar novas razões, novos objetivos. Aceitar nossa mediocridade, aceitar os desafios e querer melhorar, além de fazer bem a nós mesmos, contagia as demais pessoas. Uma espécie de corrente do bem. E foram esses os conselhos que dei ao meu amigo. Não importa a idade, o tipo de doença ou problema que você tenha em sua vida. Importa você despertar, acreditar que você não é melhor do que os outros, que não é digno de regalias. Você não é melhor do que aquela criança indefesa, que passa dias, meses, até anos dentro de um hospital de câncer infantil. O privilégio de nossas vidas é acreditar que, mesmo diante de tamanhas dificuldades, podemos servir de exemplo, ter gratidão a cada dia que começa e fazer o bem, à nós mesmos e a cada pessoa que permeia nossas vidas.

Ninguém está livre

Ninguém está livre de sofrer estes reveses na vida. Diante de um homem culto, inteligente e religioso, eu tive o privilégio de aprender, também com ele. Eis que meu amigo externou, com uma simplicidade soberana, que estava grato com tudo o que havia vivido. Um sentimento de esperança temperado com uma pontinha de lamento. Comentou que nunca havia sentido dor, que sua vida, até então, tinha sido plena. Um sentimento de gratidão, mas que ao mesmo tempo arrastava uma certa tristeza diante do desconhecido. O certo é que nunca saberemos o que virá pela frente. Mas sei, receber uma notícia dessas, quando a pessoa é do tipo egoísta, vaidosa, ingrata, materialista ou ranzinza, aí sim, deve ser muito pior. Eu não saberia o que dizer diante de uma situação dessas. Não conseguiria me fazer entender. Mas, se você acredita que é capaz de vencer um desafio desses, não propriamente o de resistir e combater a doença, mas de se redescobrir, você estará apto a despertar maravilhas em sua vida. Foi como finalizei minha conversa. A vida é muito maior do que simplesmente estar vivo. Isso é libertador, acredite!

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