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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Arrependimento

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Existem poucas sensações na vida que são piores que o arrependimento. Aquela sensação de não poder voltar no tempo, de perder em definitivo, de saber que poderia ter feito de maneira diferente. E na vida, existem dois tipos de arrependimento: daquilo que fizemos e daquilo que não fizemos. Qual será o pior? Eis aí, uma boa discussão para se ter numa mesa de bar, enquanto se toma um bom chope cremoso, sem aquela pretensão de resolver os problemas do mundo, mas com uma total vontade de. Afinal, existem alguns arrependimentos que criam chagas na alma. Mas estes, nem mesmo a mesa de bar resolve.

Colônia e Dusseldorf

Falando em chope, ou melhor em cerveja, na Alemanha o chope é conhecido como fleisch bier, ou cerveja fresca, viva, não pasteurizada. O termo brasileiro deriva da palavra schoppen, que é um tipo de caneca. Mas isso é assunto para outro dia. Vamos à Alemanha, para depois chegarmos ao arrependimento. Lá, no país dos bávaros, cada cidade tem a sua cervejaria. Algumas têm bem mais que uma. Mas em se tratando chope, daqueles cremosos, como os que tomávamos no final dos anos 90, na Caverna do Ratão ou no Bar Líder, em Porto Alegre, nenhum lugar supera a cidade de Colônia – Köln, em alemão. É lá que se produz a famosa cerveja Kölsch. O curioso é que, em toda a Alemanha, este estilo de cerveja conta com proteção territorial. Só pode, portanto, ser produzida em Colônia. Logo, se quiseres saborear uma Kölsch genuína, terás de provar na fonte, onde inclusive surgiram as famosas Águas de Colônia – Kölnisch Wasser - uma espécie de perfume. Essa cidade encantadora, às margens do Rio Reno, no noroeste da Alemanha é vizinha de outra cidade famosa, Düsseldorf, que também tem sua cerveja típica: a Altbier (cerveja velha). Mas o que têm em comum, Kölsch e Altbier? Ri-va-li-da-de. São cidades próximas, mas extremamente rivais com suas cervejas, como Inter e Grêmio, como Lula e Bolsonaro.

O barco do menino Jesus

Nesta vida, tive muitos privilégios, reconheço. Um deles, foi tomar a tal da Kölsch em sua fonte primária, com destaque para a Cervejaria Früh, que fica ao lado da monumental Catedral de Colônia, a Kölnisch Dom. Quando visitei a catedral, a Europa estava recebendo imigrantes que fugiam da Guerra na Síria, situação semelhante a que vive a Polônia neste momento. Os refugiados vinham em barcos e não raro morriam afogados, vítimas de naufrágio nas águas do Mediterrâneo. A Alemanha os recebia com gratidão, como forma de “pagar seus pecados”. Essa era a sensação que tínhamos. Uma espécie de resgate do passivo moral. Eis que, ao adentrarmos na imensa catedral, avistamos um barco, tipo um “caíco”. Nele havia uma frase, escrita em diversos idiomas: “Neste barco poderia estar o menino Jesus! ” Que emocionante e chocante. Não importa a origem e o destino dos povos, seremos sempre irmãos. Mas voltamos às cervejas...

Num bar de Colônia

E naquela noite de outono, em um bar de Colônia, dividíamos a mesa, eu e minha esposa, com um jovem alemão, chamado Mathias, que estava acompanhado de sua noiva russa. No meio da conversa, falei que gostaria de provar as famosas Altbier, de Düsseldorf, considerando que a minha viagem era de turismo cervejeiro. Foi quando Mathias me olhou com desprezo. Um olhar que, aos desavisados pareceria até um pouco antissemita. Ele fez uma cara de nojo que me desestimulou completamente. Deu risada das Altbier. Disse que se eu havia gostado das Kölsch, que eu teria nojo das cervejas de Düsseldorf. Os alemães são assim, parecidos com os gaúchos neste quesito. Algo como doutrinar um estrangeiro, para que torça para o Grêmio ou para o Inter. Tem que escolher um, pois são opções mutuamente excludentes.

Arrependimento

No dia seguinte, deixamos Colônia para trás. Düsseldorf também, que ficou ao largo. Seguimos para Berlin, onde em um supermercado, comprei a tal Altbier e experimentei o seu paladar literal de “cerveja velha”. Mathias tinha razão. Mas, e Düsseldorf? Esta, ficou na conta do arrependimento. Uma espécie de arrependimento fútil, é verdade. Mas a vida funciona assim. O poder das escolhas pode gerar arrependimentos. A influência de terceiros, também gera arrependimentos, tanto daquilo que fizemos, quanto daquilo que deixamos de fazer. Não que Mathias não tivesse razão quando ao paladar das Altbier. Mas passado o momento da decisão, não se volta atrás. Disso tudo que me ocorreu, aprendi que quando alguém faz cara feia para alguma coisa, há do outro lado, alguém que faz outra cara, bonita, talvez. A outra face, como dizia Jesus. Assim funciona quando se tem rivalidade. Quem terá razão? Ignorar um barco de imigrantes também pode ser um erro fatal, um arrependimento marcante. Se quiseres decidir pelo bem, deves conhecer os dois lados. Salvem as Kölsch! Elas não seriam nada se não fossem as Altbier, como Grêmio e Inter. Na dúvida? Torça pelo canarinho.

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