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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

O efeito Orloff

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Houve um tempo, há mais ou menos cinco séculos, que os povos europeus buscavam, através das águas, a integração dos continentes e a ampliação de seus domínios. Primórdios da chamada geopolítica. Período conhecido como “o ciclo das grandes navegações”, dominado por ingleses, portugueses e outros povos europeus. Além do desejo de desbravar terras novas e de contrariar os movimentos da Inquisição, que insistia na ideia de a Terra ser plana, estes desbravadores tinham algo em comum: o álcool. Então, em suas expedições, não podia faltar a bebida predileta.

A solução inglesa

Eram tempos difíceis. Os ingleses, levavam a bordo suas cervejas e, como ainda não tinham aplicado o os princípios científicos do francês Louis Pasteur, pouco tempo depois de zarparem de seus portos a bebida acabava estragando. A solução, então, foi adicionar rum às cervejas. Com isso, além de aumentar a eficiência inebriante, aumentava-se a vida útil da bebida. Tempos depois, com o advento dos estudos sobre o lúpulo, importante planta antibiótica, as cervejas inglesas passaram a contar com mais lúpulo em suas formulações. Saía o rum, entrava o lúpulo, ou mesmo os dois. Nascia assim, a cerveja para o caminho das índias, o que hoje conhecemos por India Pale Ale, mais conhecidas como IPAs. Amargas, por conta do excesso de lúpulo, estas cervejas se tornaram, recentemente, adoradas pelos degustadores modernos da bebida. Diferentes dos brasileiros, os ingleses têm outro hábito estranho: tomar cerveja sem carbonatação. Cerveja choca, como conhecemos. Mas isso não saiu ainda dos pubs ingleses. No gas! Como dizem.

A solução portuguesa

Os portugueses, por sua vez, sempre preferiram o vinho às cervejas. Em suas expedições continentais, não podiam faltar tais bebidas. Já os ingleses, produtores de cerveja, também eram apreciadores de vinhos, mas compravam esta bebida dos portugueses e franceses. E, para que não estragassem, os produtores portugueses acresciam aguardente na formulação, tal como faziam os próprios ingleses com as suas cervejas IPA. Então, segundo a lenda, dois irmãos, produtores da região do Douro, numa ocasião, colheram uvas com alta concentração de açúcares fermentescíveis, ocasionando um vinho forte, de teor alcoólico acentuado. Nascia assim o famoso “Vinho do Porto”. Bem mais alcoólico que os normais, a bebida caiu no gosto dos ingleses e, mais tarde, proporcionou, inclusive, a assinatura do famoso “Tratado de Methuen”, onde os ingleses trocariam tecidos pelos vinhos portugueses. Portugal “passando a perna” nos franceses, que perderam mercado por meio deste acordo comercial.

Entre IPAs e Vinhos

O fato, inegável, é que se não fossem as IPAs e os vinhos do Porto, ainda seríamos uma nação silvícola. Por mais evoluído que você seja e por mais comedido no consumo de sua bebida, volte um pouco no tempo. Imagine-se no lugar de um navegador. Sua mãe dizendo que a Terra é plana e que ao final há uma cachoeira infinita, um desfiladeiro para o além. Só mesmo bebendo para ter coragem de enfrentar o desconhecido, em meio a todas as adversidades que tais expedições estavam sujeitas. O fato é que a bebida faz parte da evolução da espécie humana moderna. O problema, todavia, está na forma como você consome. Boris Iéltsin, por exemplo, foi o primeiro presidente russo depois da queda da então União Soviética. Conhecido por seus vexames etílicos, governou a Rússia durante a última década do milênio passado. Talvez, se não fosse um bêbado contumaz, teria formado um sucessor menos pragmático e louco.

Efeito Orloff

Nos anos 80, havia uma propaganda de vodca, que dizia que a bebida não dava ressaca. Nascia o jargão “efeito orloff”, em alusão a marca. Hoje, passados tantos anos, o mundo vive a ressaca de um presidente russo bonachão, bêbado, que deixou como seu sucessor, ninguém menos que Vladmir Putin. Prova de que os excessos sempre causam desgraças. Além de tudo, faltam estadistas, equilibrados, à altura de Churchill, o inglês, e o Infante de Sagres, o português. E entre vinhos e cervejas, certamente a história seria mais bem contada do que com excessivas doses de vodca. Salvem as cervejas e os vinhos do Porto! E estejam protegidos da ressaca desses russos!

 

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