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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Silogismo

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Nos primeiros dias da guerra na Ucrânia, quando escutava notícias da invasão russa, lembrei desta história que vou contar hoje. Quando estudava Direito, e lá se vão mais de vinte anos, meu professor de lógica chegava a ser chato, irritante e repetitivo, do tanto que ele insistia em nos ensinar o que era “silogismo”. De tanto ouvir seus exemplos, acho que aprendi. Mas o silogismo tem outras formas de existência, como nas brilhantes atuações do advogado Oswaldo de Lia Pires. Ele tinha uma invejável capacidade de transformar gestos e palavras em contundentes silogismos.

Entendendo silogismo

Está certo, se você não sabe, ou mesmo não lembra o que é silogismo, darei uns exemplos que irão te fazer lembrar. Não é pecado não saber. Trata-se de uma forma de argumentação, baseada em premissas, que levam à uma conclusão. Eis um exemplo simplório: se todo homem é mortal (premissa) e se João é homem (premissa), logo João é mortal (conclusão). Simples assim. Mas o problema está quando uma, dentre várias premissas, é falsa e o interlocutor não a percebe e concorda com a conclusão. Por exemplo: Se a Ucrânia baixar suas armas (premissa) e se aceitar a invasão Russa (premissa), não vamos mais jogar bombas. Viu, a responsabilidade pelo cessar fogo é da vítima. Inversão de responsabilidade.

Lia Pires

Conta a História, que o advogado criminalista Lia Pires, em uma de suas históricas e teatrais atuações, conseguiu absolver um sapateiro que havia matado seu vizinho com uma espingarda calibre doze. A vítima passava diariamente em frente à sapataria e proferia um palavrão ao réu. Até que um dia o sapateiro matou o vizinho desbocado. Tempos depois, no juri, Lia Pires começava a defesa do réu se dirigindo ao juiz, dizendo: “Excelentíssimo senhor juiz, presidente desses trabalhos”. O advogado repetiu essa frase quatro vezes seguidas. Na quinta oportunidade, o juiz o interrompeu, indignado. Ao que Lia Pires então respondeu: “Veja bem, excelência, eu o elogiei quatro vezes e o senhor ficou irritado. Imagine,  se como o meu cliente, o senhor ouvisse um palavrão todo dia”. E o sapateiro foi absolvido.

A repetição

Semanas atrás, quando começou a guerra na Ucrânia, eu havia escrito sobre a história da Anne Frank. Em meus textos, falei sobre a desinformação, poderosa ferramenta de comunicação dos nazistas. Agora, assistindo o que dizem as autoridades russas, como o próprio presidente do conselho de segurança da ONU, me vejo novamente diante dos falsos silogismos e da real desinformação. Primeiro, porque existem coisas na vida que podem sim ser dialogadas, mas jamais negociadas. A vida é uma delas. E o que vimos, no começo desta guerra, foi o invasor de uma propriedade dizendo aos invadidos: “se vocês entregarem suas armas eu tomarei sua casa, porque eu entendo que ela deve ser minha e vocês não morrerão”. Isso é um silogismo, um falso silogismo. Na prática, é como se um dia você decidisse tomar para si a casa que já foi de sua avó, forçando a saída de seus moradores, sob a alegação de que, no passado, a casa foi da sua família. Simples assim. Essa é a guerra, absurda e controversa.

A guerra

Diante de tudo o que estamos assistindo, por óbvio tem muito mais coisas que não sabemos e que não temos condições de alcançar. Mas a provocação é livre. Seguimos com o silogismo. Por exemplo: Donald Trump era amigo dos russos. Donald Trump perdeu a eleição para Joe Biden. Logo, os russos são contra Joe Biden. Outra ideia: os americanos produzem mísseis e bombas. Mísseis e bombas têm prazo de validade. Logo, como se livrar dessas bombas quando o prazo de validade está próximo? E olha que estou falando dos americanos. Aí pra cima, falei dos russos. Infelizmente, não tem gente santa de nenhum lado. Se tivesse, talvez não teríamos guerra. Outro silogismo. Fica a dica, como dizem os jovens: antes de aceitar a conclusão verdadeira, analise bem se não há falsas premissas.

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