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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Mulheres

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Ainda em fevereiro, antes de começar a guerra, concluí a leitura de Felicidade Conjugal, escrita pelo russo Liev Tolstói em 1859. Recomendação da minha mãe. Então, para dar uma humanizada na coluna e não ficar falando da guerra, assunto que de certa forma me fascina, trago hoje a experiência que tive desta leitura, tomando carona no Dia Internacional da Mulher. E como sempre digo, não sou crítico de cinema, nem tampouco, literário. Logo, restringirei a análise ao que me chamou atenção, sem a pretensão de resumir tudo em 500 palavras.

Sensibilidade feminina

O livro é fluido, de leitura simples, por mais que tenha sido escrito há mais de 150 anos. Mas o que é interessante, não é propriamente a sua história, o que aos olhos de hoje, pareceria banal ou mesmo piegas. Chama atenção, a forma e por quem ela foi contada, o que dá grandes méritos ao autor. É encantador saber que um homem (o autor) conseguiu narrar a história como se fosse uma mulher. Tudo isso em um contexto histórico já distante, dentro de uma cultura totalmente masculina, ambientado em um vilarejo do interior da Rússia. Dá para imaginar? Isso é que faz o livro ser tão surpreendente. A sensibilidade de Tolstói sobre a percepção feminina beira à perfeição, ao ponto de nos fazer acreditar que a narrativa é realmente feita por uma mulher. Afinal, até hoje, nós homens, somos incapazes de compreender o sentimento genuinamente feminino. Temos muita dificuldade em entender como funcionam. Elas, por sua vez, têm enorme facilidade em nos compreender. Só este ensaio já vale a leitura.

Ambiente e conteúdo

O romance se passa em uma cidade do interior da Rússia e relata a vida da personagem principal, Mária. De família abastada, a jovem órfã descobre sua real identidade à medida em que o tempo vai passando. Ela então se casa com um grande amigo de seu falecido pai, quiçá, sua única opção naquele fim de mundo. O romance conta os bastidores da diferença de idade, vez que Sierguiéi, seu marido, é mais velho e mais “experiente” na vida. Ela, por sua vez, é uma mulher de vanguarda e a história aborda com maestria os desdobramentos de todas as dúvidas e pensamentos que se passam na cabeça feminina. Mesmo vivendo naquele tempo em que as mulheres não tinham vez, não deixa de ser uma história de amor, outra faceta feminina. No seu desenrolar, ela faz exigências e se impõe ao marido, o que era praticamente impensável naquele tempo. Depois, descobre os mistérios de sua sexualidade e de sua sensualidade, sem vulgaridade. Tem filhos, conhece o arrependimento e, madura, obtém o perdão do marido, que ao cabo, demonstra ser um homem compreensível, até mesmo bem feminino, considerando a época.

Mulheres

Me considero um homem bastante feminino, mas confesso que gostaria de ter a sensibilidade de um Tolstói. Em minha vida, fui um afortunado com as mulheres. Primeiro, por ter nascido de uma mãe valente, presente e de personalidade forte. Depois, por ter acertado em meu casamento e, para não falhar a dinastia, por ter, em minha filha, a união de todas essas faculdades e virtudes femininas que permeiam minha mãe e minha esposa. Bem edipiano, talvez. Mas ser mulher não deve ser fácil. São teoricamente mais frágeis, do ponto de vista físico, algo tão bem cantado por Erasmo Carlos, na música Mulher. Tão logo adolescem, menstruam. Quando amadurecem, têm de aguentar as infantilidades e brutalidades dos homens, que tardam a amadurecer. Quando se casam, carregam no ventre as gerações futuras. Então, abdicam de seus projetos em nome da família e não raro sabem se pôr em segundo plano e aceitam, em perfeita resiliência. Não raro, desfrutam de suas vidas apenas depois do cinquenta. Cinquenta anos, não “tons de cinza”. Sinceramente falando, tomando por base as escrituras sagradas que dão suporte às religiões, eu ousaria dizer, sem ofensa: Deus deve ser mulher. Só elas conseguem aturar tudo o que se passa na face da Terra.

Neste oito de março, parabenizo as mulheres da minha vida, as mulheres da sua vida e as mulheres deste mundo, em especial às ucranianas (russas também), que com seus filhos, abandonam seus lares e maridos, refugiando-se da insensatez masculina e desvairada de Putin.

 

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