As novas Anne Frank – Parte II
Na minha coluna de ontem, contei um pouco sobre a História de Anne Frank. Comentei sobre o nazismo e de como a desinformação acaba permitindo a repetição de erros do passado. Se você não leu, está no site do jornal. Vai lá e confere. Hoje, dando sequência, vou contar algo interessante que se passou comigo e com meus filhos. Foi quando conheci outra Anne Frank.
Abrigar e desabrigar
Foi num domingo à tarde. Levei meus filhos para jogar futebol e, no mesmo campo, estavam crianças e adolescentes assistidos pela entidade que os abriga, vez que foram retirados da convivência familiar, nos termos da lei. Enquanto a “piazada” jogava, conversei com uma adolescente, dezessete anos, prestes a deixar a instituição devido a sua iminente maioridade. Conversa vai, conversa vem, ela me disse que gostava de escrever e que gostaria de ser escritora. Relatou que durante os seus primeiros anos no abrigo, sentia raiva de estar naquela condição. Vivia este conflito e não raro pensava em fugir, mas não tinha para onde. Agora, prestes a ser “desabrigada”, vive a sensação contrária, a de quem não quer deixar a casa, também por não ter onde ir. Imagino quão angustiante deva ser mais esta ruptura.
Expressando os sentimentos
Então, conversando com a menina, contei a ela que também gostava de escrever e que mantinha esta coluna aqui no jornal. Percebi como seus olhos brilhavam. Mesmo sem jamais ter lido uma linha sequer destas colunas, ela me observava com admiração. Quanta responsabilidade. Foi então que ela me disse que mantinha um diário e que nele escrevia tudo o que acontecia com ela no abrigo. Inverteram-se os polos. Fiquei vidrado na conversa dela. Sem filtros, confessou que escrevia mais sobre os maus sentimentos do que os bons. A escrita era uma ferramenta para se libertar de seu aprisionamento emocional. Perguntei se ela gostava de ler. Respondeu que lia muito. Então eu perguntei se ela teria vontade de publicar os escritos. Disse que sim, mas que sentia vergonha, porque cometia erros de português.
Sobre a História
A conversa fluiu com muita naturalidade. Fiz algumas perguntas. Conhece a história da Anne Frank? Foi a primeira delas. Ninguém ali conhecia. Havia outras pessoas na conversa. Depois perguntei se ela sabia o que tinha sido a Segunda Guerra Mundial. Também não sabia. Hitler? Também não, só ouviu falar. Fiquei chocado com a alienação da menina. Mas não é culpa dela, a gente sabe a “qualidade” do ensino hoje em dia. Então lhe contei um pouco da história da Anne Frank. Seus olhos brilharam ainda mais. Não acreditava que pudesse ser verdade. Senti que ela se identificava com a protagonista. Falei dos campos de concentração, poupando-a das maldades, é claro. Ela ouvia cada detalhe com uma atenção incomum.
A nova Anne Frank
Obviamente, saí dali com um nó na garganta. Como pode uma menina, com dezessete anos, que estuda na mesma turma da minha filha, não ter conhecimento da Segunda Guerra Mundial? Há muitas respostas para isso e nenhuma justificativa aceitável. Foi então que pensei, que enquanto sociedade, ainda repetimos atitudes nazistas, como a sutil desinformação. Quanta semelhança entre as histórias de vida. Separação do convívio familiar, um diário e um sonho. No enredo, as incertezas que virão em sua vida quando completar 18 anos. Ressalvadas as particularidades, me vi diante de mais uma Anne Frank. Quieta, oculta e esquecida pela sociedade da qual também faço parte. Saí da conversa com uma certeza: precisamos evoluir muito enquanto sociedade. Quantas Annes Frank devem existir por aí? Quantos diários, quantos relatos, quantas histórias e quantos sentimentos? Quem dá ouvidos a essa gente? Precisamos pensar a respeito e agir, antes que aprendamos o que é Segunda Guerra Mundial através da Terceira.