A estiagem e a torneira
Quando era criança, uma das formas pedagógicas de ensinar sobre algo definitivamente proibido ou perigoso, se dava por meio de uma frase: Deus castiga! Então, o pai ou a mãe costumeiramente diziam: não corre de bicicleta! E se caísse um tombo, ouvia a sentença: viu? Deus castiga! Ainda tinham aqueles, que mesmo machucados, apanhavam quando retornavam. E mesmo assim, com toda essa maldade depositada às contas supremas, segui temente e acreditando em Deus. Confesso que essas “ameaças divinas” me ajudaram a ter limites, mas isso é outro assunto. Logo, quando vejo um fenômeno natural, como um tsunami ou mesmo um vendaval, acabo automaticamente creditando a fúria na conta suprema.
A força da natureza
De forma científica, diversos artigos já atribuiram aos homens, a causa de grande maioria dos fenômenos naturais que ocorrem na crosta terrestre. Ciclones, aquecimento global, enchentes, estiagem e tantos outros destemperos. Seriam estes, “castigos divinos”? A ciência aponta que o mau uso dos recursos naturais, como o desmatamento, aquela roubadinha de beira de sanga para plantar um palmo a mais de soja, cumulativamente, dão causa a estes “desequilíbrios” naturais. De fato, a mão humana é responsável, ao menos de acordo com os estudos. A falta de chuvas, por exemplo, poderia perfeitamente se enquadrar neste critério. A chamada lei de causa e efeito atuando na prática.
A estiagem
Não é que na safra deste ano, com os preços das commodities em crescente alta, está justamente padecendo dos efeitos da estiagem? Quanto prejuízo! Se foi o nosso PIB lomba abaixo. Que tristeza ver as frutas murchando nos pés, as criações sofrendo com o calor e a falta de água. Nossa querência amada virou um verdadeiro torrão gaúcho, ao ponto de ser comparada às áridas terras do sertão nordestino de outrora. Mas fica a pergunta: quanto de tudo isso seria culpa da ação humana, do somatório da ganância de uns, cuja conta recairá sobre todos. São questionamentos difíceis de serem feitos em meio ao enorme e incalculável prejuízo que teremos.
A torneira
Mas qual a relação entre a estiagem e a torneira? Comportamental, eu diria. A gente cansa de ver, especialmente em banheiros masculinos, dizeres incentivando à pontaria dos homens na hora da micção. Frases de apoio, por vezes humoradas, para que o banheiro fique asseado e habitável e, não raro, encontramos verdadeiras pocilgas servindo de lavabo. Tudo questão de comportamento, de educação, de senso de urbanidade. Assim é com a torneira que pinga. O sujeito usa o banheiro, lava suas mãos e não se importa em sair e deixar a torneira pingando, sabe-se lá por quanto tempo, até que um ser humano “preocupadinho” com o planeta, feche-a adequadamente. E depois, esse mesmo ser distraído, reclama da falta de chuva ali adiante.
Teremos problemas
Eis a razão pela qual a natureza se enfurece com frequência. Acredito que isso ocorra pela incapacidade de os homens prestarem a mínima atenção em pequenos detalhes, como usar um simples banheiro público. Assim, entre um agricultor que atropela uma beira de mata pra colher mais meia saca de soja e um usuário de banheiro público que não se preocupa com a pontaria, ou mesmo deixa a torneira pingando, não há nenhuma diferença. Há sim, uma falta de educação, cujos reflexos são coletivos e não individuais. Deus não castiga ninguém. Como disse Thomas Hobbes há quase 500 anos: “O homem é o lobo do homem”. Quem realmente castiga são os homens, que por ignorância, se põem a reclamar quando a chuva insiste em passar à lo largo...enquanto a torneira segue pingando.